Título: Novo aperto no crédito
Autor: Rodrigues, Lino; Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 08/04/2011, Economia, p. 19
SOB PRESSÃO
Contra a inflação, governo dobra IOF de empréstimos a pessoas físicas. IPCA de março é o maior desde 2003
Lino Rodrigues, Bruno Rosa e Flávia Barbosa
Ogoverno decidiu dobrar - de 1,5% para 3% ao ano - a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incide sobre todas as operações de crédito de pessoas físicas. A medida, que vale a partir de hoje, foi anunciada no início da noite de ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e tem como objetivo conter a expansão do crédito no país e reduzir a demanda, principal responsável pela alta da inflação na avaliação da área econômica do governo. Segundo Mantega, a alta no IOF é um sinal de que o governo "toma medidas fortes para impedir que a inflação saia do controle". O ministro contou que a decisão da elevação foi tomada depois de o IBGE anunciar ontem de manhã que a inflação pelo Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA, que orienta o sistema de metas de inflação do governo) ficou em 0,79% em março, maior taxa para o mês desde 2003. O índice ficou acima do esperado por analistas, que projetavam avanço de 0,7% a 0,74%. O resultado já acumula nos últimos 12 meses alta de 6,3%, a maior desde novembro de 2008 (6,39%), cada vez mais perto do teto da meta de 6,5%.
- A medida visa a moderar o aumento do crédito para o consumo. Queremos ajudar a fazer com que a inflação decline e fique acima da meta este ano, mas abaixo do observado no ano passado - disse Mantega, que chegou a anunciar que a nova alíquota seria cobrada mensalmente, o que foi corrigido depois pelo ministério.
Apesar das medidas macroprudenciais já adotadas pelo Banco Central (BC) para conter a alta das compras a prazo, o ministro disse que o aumento do crédito tem girado em torno dos 20% ao mês, crescimento que foi determinante no aumento da inflação nos três primeiros meses do ano. A ideia, segundo Mantega, é reduzir o ritmo para algo em torno de 12% a 15%, percentuais que determinariam a volta da alíquota a 1,5% para o IOF.
- A medida não é permanente, é regulatória. Quando houver a desaceleração do consumo, da demanda vamos retornar à alíquota antiga - afirmou o ministro.
Mantega salientou que a alta do IOF não atinge o crédito para empresas e investimentos. Inclui todos os financiamentos a pessoas físicas, com exceção dos empréstimos imobiliários, que não serão afetados.
- É uma medida na veia para segurar o crédito ao consumidor e terá um efeito muito grande de política monetária - resumiu uma fonte da equipe econômica, acrescentando: - E isso é um recado (para o mercado) de que o governo está agindo para segurar a inflação.
Técnicos do governo lembraram ontem, inclusive, que o cenário atual é bastante diferente do de janeiro de 2008, quando foi feita uma alta idêntica do IOF. Naquele momento, a expansão do crédito recuou no primeiro mês do ano, se estabilizou em fevereiro e voltou a acelerar em março.
- Mas naquela época era possível diluir o custo com prazos maiores. Em 2011, após as medidas macroprudenciais de dezembro passado, que restringiram o crédito de longo prazo, esta não é uma saída. Os empréstimos ficarão mais caros - ponderou um técnico.
O resultado do IPCA em março ficou praticamente igual ao de fevereiro, de 0,8%. Em março de 2010, o IPCA ficou em 0,52%. Este ano, acumula variação de 2,44%. Segundo o IBGE, as maiores pressões vieram dos preços dos alimentos (0,75%), das passagens aéreas (29,13%), do álcool (10,78%) e, consequentemente, da gasolina (1,97%).
- Tradicionalmente o mês de março tende a ser inferior em relação a fevereiro, quando há o reajuste das escolas. Mas este ano essa queda foi neutralizada pelo avanço dos preços dos alimentos e dos transportes - disse Eulina Nunes dos Santos, coordenadora do IBGE.
IPCA pode passar de 7% em agosto
Dentro do segmento de alimentos, os itens que mais pesaram foram os sensíveis ao clima, como cebola (17,76%) e batata inglesa (12,4%), e produtos ligados à Semana Santa, como ovos (5,08%) e pescado (3,21%). Eulina destacou ainda o setor de transporte, como o aumento das passagens de avião por conta do carnaval.
Analistas destacaram ainda que a falta de açúcar no mercado internacional e o período de entressafra da produção no Brasil foram os responsáveis pelo avanço do preço dos combustíveis. A consultoria LCA afirmou que também pesaram os reajustes nas tarifas de metrô, trem e ônibus intermunicipal em São Paulo.
Segundo o economista Luiz Roberto Cunha, professor da PUC, o IPCA vai ultrapassar a barreira dos 7% em 12 meses já em julho próximo. Em agosto, pode chegar a 7,36%, nos cálculos do professor, perto da campanha salarial de importantes categorias, como petroleiros, bancários e metalúrgicos.
- Isso vai gerar uma pressão para reajustes maiores no semestre.