Título: Saldo positivo em início de governo
Autor:
Fonte: O Globo, 10/04/2011, Opinião, p. 6

A praxe de se avaliar os primeiros 100 dias de trabalho de governantes tem características próprias no caso de Dilma Rousseff. A principal delas é que a presidente não assumiu em 1o - de janeiro de 2011. O cargo de presidente, sim; mas do poder ela compartilha desde 2003, e, com mais intensidade, a partir do final do primeiro mandato de Lula. A peculiaridade reúne vantagens e desvantagens. Se amáquina burocrática e as políticas públicas em curso não têm segredo para a ex-ministra de Minas e Energia e chefe da Casa Civil, a presidente herda também, em alguma proporção, a responsabilidade por mazelas decorrentes do governo anterior ¿ também dela. Mas Dilma, por mais que haja no governo um cuidadoso discurso em contrário, não demonstra, por estes 100 dias, ser uma disciplinada e fiel seguidora de Lula, fato positivo neste início de gestão.

O primeiro e bem-vindo sinal de mudança emrelação à Era Lula envolveu umdos abre-alas do governo passado, a diplomacia companheira. Intoxicada por um terceiro-mundismo antiamericanista das décadas de 60 e 70 do século passado, esta política externa imolou questões de princípio, como a defesa dos direitos humanos, em nome de um juvenil não alinhamento. Lula tratou o ditador líbio Muamar Kadafi por ¿irmão¿, voltou as costas a dissidentes cubanos em greve de fome ¿um morreu enquanto o presidente confraternizava alegremente comos irmãos Castro¿tratou com desdém também as vítimas da ditadura teocrática persa de Ahmadinejad e aceitou participar de uma reunião com o não menos sanguinário Robert Mugabe, ditador do Zimbábue. Já a presidente deixou claro não compactuar com o apedrejamento de mulheres no Irã e determinou o apoio brasileiro na ONU ao envio de emissário àquele país, para examinar aquestão dos direitos humanos; e tambémavalizou a expulsão da Líbia da comissão das Nações Unidas que trata do tema. Fez mais bem à imagem externa do Brasil em três meses do que ogoverno Lula em oito anos. Outro grande crédito a Dilma foi ter sabido distender o país. Parcimoniosa em declarações públicas ¿como deve ser um presidente ¿ e sem cair na tentação de arroubos explosivos, ela baixou o tom do debate político e cauterizou a agressividade decorrente da campanha eleitoral.

O saldo dos primeiros 100 dias é positivo. Nos três anos e nove meses que restam, porém, há sérios obstáculos a superar . O principal deles é a inflação, diante da qual o governo Dilma demonstra perigosa leniência. Prefere um pouso suave da economia, mesmo com orisco efetivo de, devido aos mecanismos de indexação ainda existentes, a inflação ganhar rigidez em níveis acima do centro da meta de 4,5%. Caso isto ocorra, quando as pressões inflacionárias tiverem de ser contidas com rapidez, ao começarem a reduzir opróprio crescimento econômico ¿ como previsto ¿, aelevação dos juros precisará ser mais radical. E o que o governo deseja evitar, um maior desaquecimento, poderá ocorrerem doses mais elevadas. Pelo menos adistensão patrocinada por Dilma nos embates políticos garante que os problemas possam ser enfrentados sem o país entrar em clima de palanque eleitoral.