Título: Crimes não ocorrem durante surto
Autor: Berta, Ruben
Fonte: O Globo, 17/04/2011, Rio, p. 16

SÃO PAULO. Homicidas que sofrem de esquizofrenia não cometem seus crimes quando estão no auge de um surto psicótico. Geralmente, decidem agir violentamente quando vivem um quadro de aparente estabilidade, envolvidos pelo próprio delírio. Essas são as conclusões do psiquiatra forense e professor da Unicamp Eduardo Henrique Teixeira, que passou quatro anos estudando 30 presos da Casa de Custódia Franco da Rocha, manicômio judiciário na Região Metropolitana de São Paulo.

Segundo Teixeira, profissionais tendem a dar mais atenção ao esquizofrênico que está em estado de muita agitação. Mas sua pesquisa indica que os momentos de ¿quase normalidade¿ podem ser mais preocupantes. Ele lembra, porém, que os esquizofrênicos em geral não são mais violentos que o restante da população ¿ suas conclusões se referem aos que foram julgados e condenados por crimes violentos.

¿ O trabalho mostrou que os esquizofrênicos cometeram crimes em períodos quando não estavam chamando a atenção, que poderiam ser interpretados como momentos em que estavam próximos da normalidade. Talvez porque estavam muito envolvidos com o delírio, tanto que nem o questionavam. Mas mantinham uma rotina aparentemente normal, sem grandes perturbações ou manifestações ansiosas ¿ explicou Teixeira.

Para o professor, é difícil para a sociedade entender como é um criminoso esquizofrênico aparenta tanta calma ao executar um crime, como no massacre em Realengo.

¿ Eles estão em uma realidade própria, criada pela mente deles em um processo patológico. E estão absolutamente convictos de que a realidade deles é verdadeira. O ambiente familiar pode ajudar a questionar o delírio, confrontar com a realidade.