Título: Espera por tratamento psíquico chega a 4 meses
Autor: Berta, Ruben
Fonte: O Globo, 17/04/2011, Rio, p. 16
Os pacientes com problemas mentais sofrem com a ineficiência dos serviços públicos de saúde no Rio. Segundo denúncias, a espera para atendimento ambulatorial com psiquiatras ou psicólogos nas unidades municipais leva até quatro meses. A situação também é caótica em hospitais de internação para pacientes graves. Há casos como no Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, onde enfermarias estão em péssimo estado, com pacientes amarrados e falta de atividades para internos. Nos Postos de Atendimento Médicos (PAMs), as vagas são limitadas, levando os doentes a desistir.
Por outro lado, estatísticas do Corpo de Bombeiros mostram um crescimento nos atendimentos de emergência a doentes mentais. Em 2009, foram 8.543 ocorrências passando para 9.045 casos em 2010. De janeiro até março deste ano já foram 2.152 atendimentos.
Para especialistas, o crime de Wellington Menezes de Oliveira, que matou 12 estudantes em Realengo, poderia ter sido evitado caso ele estivesse amparado pela família e em tratamento. Um dos irmãos adotivos do atirador contou, em entrevista ao ¿Fantástico¿, que Wellington ia ao psicólogo, mas interrompeu o tratamento aos 17 anos.
¿ É possível afirmar que, se a família estivesse presente e recebesse a orientação adequada, até mesmo sobre a necessidade de internação, o crime teria grandes chances de ser evitado ¿ diz Paulo André Issa, neuropsiquiatria infantil e adulto.
Em Bangu, vagas na fila para atendimento são vendidas
Os especialistas explicam ainda que o diagnóstico de Wellington se assemelha ao transtorno de personalidade esquizoide, ou mesmo esquizofrenia, geralmente manifestada entre 14 e 25 anos. Se recorresse ao atendimento público na área de Realengo, no entanto, o atirador passaria por dificuldades.
No PAM de Bangu, que atende a oito bairros, incluindo Realengo, são distribuídas apenas seis vagas por semana para atendimento a doentes mentais, sempre na segunda-feira. Para ser atendido, o paciente passa a noite de domingo na fila. Vendedores ambulantes cobram entre R$40 e R$25 para dormir na fila e conseguir a senha.
¿ É preciso chegar até as 22h de domingo para conseguir a senha. Às 23h30m já tem as seis pessoas na fila, mas eu fico aí por R$25. O pessoal aqui costuma cobrar R$40 ¿ disse um ambulante, sem saber que conversava com jornalistas.
Também há problemas no Hospital Psiquiátrico Jurandyr Manfredini, pólo de emergência na Zona Oeste.
¿ São muitos pacientes e não há leitos suficientes. Para não deixar de atender, colocamos colchões no chão ¿ contou um funcionário, que preferiu não se identificar.
Na semana passada, vistorias da Comissão Municipal de Saúde (da Câmara dos Vereadores) e do Sindicato dos Médicos do Rio (SinMed) nos hospitais psiquiátricos Philippe Pinel, em Botafogo, e Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, mostraram que há falta de profissionais e unidades sem estrutura. Nas enfermarias de internação masculina do Nise da Silveira, os pacientes ficam trancados e têm como lazer apenas um televisor. O prédio está em péssimo estado de conservação. Há camas enferrujadas e com estrados quebrados e mofados. Segundo os funcionários, não há terapia ocupacional para os pacientes nem comida suficiente.
¿ Aqui a gente tem que ver televisão ou brigar. A água é fria. Fico pulando para esquentar o corpo ¿ disse um paciente, de 53 anos, internado há 15 dias.
No Pinel, em Botafogo, os funcionários reclamam que há muitos pacientes para poucos profissionais. Numa das enfermarias femininas, um técnico de enfermagem precisa cuidar de 23 mulheres.
¿ Essas pessoas foram excluídas da sociedade, das suas famílias e do poder público. Não há dignidade no tratamento desses hospitais, que mais se parecem com cadeias ¿ disse o vereador Carlos Eduardo de Matos.
Segundo a Secretaria municipal de Saúde, a rede conta com 60 ambulatórios de saúde mental, fazendo, em média 200 mil procedimentos por ano. Há ainda os hospitais Philippe Pinel, Nise da Silveira e Jurandyr Manfredini, que atendem, cada um, até cinco mil pessoas por mês.
O superintendente dos institutos municipais de saúde mental, Mário Barreiras, admitiu a falta de profissionais, mas anunciou a contratação de novos profissionais até o fim do ano e obras nas unidades. Sobre o PAM Bangu, a coordenação de saúde mental informou que já contactou a direção para melhorar o fluxo de pacientes.