Título: Recuperação esbarra em aviso na porta
Autor: Berta, Ruben
Fonte: O Globo, 17/04/2011, Rio, p. 16
Moradora da Zona Sul, X., de 49 anos, sempre achou o comportamento do filho diferente. Dois anos de pois de passar no vestibular para física em três universidades públicas, ele anunciou que havia trancado a matrícula. Em seguida, passou a ter comportamentos agressivos e a se afastar da família, que recorreu ao serviço público de saúde mental.
¿ Não temos plano de saúde. Recorri a um atendimento gratuito de uma universidade, onde o médico, após 15 minutos, disse que meu filho tinha esquizofrenia e não havia cura. O tratamento seria ambulatorial ¿ contou X., lembrando que esse atendimento não estava funcionando no local. ¿ Era janeiro; o funcionário me disse: ¿vai ligando porque em meados de fevereiro o serviço poderá estar de volta¿.
Sem recursos, X. recorreu a um PAM perto de casa. No entanto, um aviso na porta do local fez com que a família desistisse do atendimento público.
¿ Dizia que o posto não fazia atendimento psiquiátrico porque o médico se aposentara ¿ lembrou a mãe do rapaz, que tem outros dois filhos menores.
Por indicação de amigos, a família do rapaz, que hoje está com 24 anos, conseguiu um desconto nas consultas particulares. Foi diagnosticado distúrbio de personalidade esquizoide, um transtorno de personalidade por falta de interesse em relações sociais, tendência ao isolamento e frieza emocional.
¿ Hoje, meu filho está medicado. Quer voltar a estudar, mas só conseguiu o tratamento porque estamos pagando um preço simbólico ¿ garantiu X.
Segundo o neuropsiquiatra infantil e adulto Paulo André Issa, pacientes também têm dificuldades na rede privada:
¿ Até hoje os planos de saúde consideram a psiquiatria como um tratamento com psicoterapia, em que a pessoa vai toda semana, e usam desse argumento para criar regras que dificultam o acesso a esta especialidade médica. Não existe qualquer explicação lógica e real, que não passe por questões financeiras. A psiquiatria deve ser tratada como uma especialidade básica e essencial.
Já o psiquiatra e professor da Uerj e da UFF Jairo Werner lembra que casos como o atirador da Escola Tasso da Silveira são raros:
¿ Nem todo doente mental será um assassino. É importante que a sociedade esteja em vigilância nas políticas públicas de saúde mental, até mesmo porque essa população (de doentes mentais) não faz protestos nem passeatas. Estamos passando por um momento de reflexão.