Título: Existe hoje na internet
Autor: Berta, Ruben
Fonte: O Globo, 17/04/2011, Rio, p. 16
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do best seller ¿Mentes perigosas ¿ O psicopata mora ao lado¿, que já vendeu mais de 300 mil cópias, acredita que o perfil psicológico de Wellington Menezes de Oliveira, que matou a tiros 12 crianças em Realengo, exclui a possibilidade de ele ter sido o autor intelectual do crime. Para a médica, criminosos com os quais ele convivia na rede virtual devem ter planejado em detalhes o atentado.
Marcelo Dutra
Por que a senhora afirma que o crime cometido por Wellington foi arquitetado por outras pessoas?
ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA: Não tenho dúvida alguma de que esse rapaz foi usado por um psicopata ou um grupo de psicopatas, que alimentaram a doença dele através de comunidades na internet. Afirmo isso devido ao perfil psicológico do rapaz. O Wellington era esquizofrênico, e esquizofrenia é uma doença rara, afeta cerca de 1% da população mundial. O indivíduo tem tanto medo do outro que se isola. Eles não são ameaça para ninguém justamente porque recuam, eles temem o enfrentamento. Quando fazem algo agressivo, como foi o caso dele e, por exemplo, de homens-bomba, é porque há um ¿perverso¿, ou seja, um indivíduo ou grupo que tem prazer com o sofrimento de outros. É o perverso que manipula essa pessoa debilitada. Você jamais vai ver o Bin Laden se explodir. Mas o que ele faz? Ele manipula outros para fazê-lo. Os mais perversos serial killers não são esquizofrênicos, são psicopatas. Isso porque eles não têm sentimento, não sentem culpa alguma.
O que leva um indivíduo a se submeter à vontade perversa de um desconhecido?
ANA BEATRIZ: Bom, há relatos de que ele (Wellington) tenha sido esquizoide, ou seja, era retraído, nada pró-ativo, e de que vivia num mundo particular. Pelo menos até a adolescência. Depois, ele abriu um quadro de esquizofrenia, onde você vê que ele sofria bullying e não reagia de forma alguma. É quando ele começa a delirar, viver numa realidade paralela. Creio que, na mesma época, houve um rompimento psíquico que pode ter ocorrido por ocasião da morte da mãe adotiva. Ele então se isolou da família e passava, segundo relatos, dia e noite na internet. É nesse momento que ele encontra alguém na rede que o apoia. Quando um indivíduo como Wellington entra numa comunidade na qual se sente entendido, aceito e estimulado, passa a ter o que nunca teve: uma identidade, ou seja, passa a existir e também a ser facilmente manipulado. Antes disso, ele não reagia a nenhuma violência, nem à rejeição.
Onde entra a religião nesse processo de convencimento?
ANA BEATRIZ: Os manipuladores começam com aquele papo: ¿Ah, sabemos o que você passa, estamos com você. Somos seus irmãos, você deve fazer isso e aquilo para que eles paguem¿. Eles apenas usam o discurso terrorista, como foi o trecho da carta do Mohamed Atta (um dos responsáveis pelo atentado do 11 de setembro), que ele (Wellington) copiou, para dar um significado transcendental, messiânico à ação criminosa. Com isso, querem dar sentido ao injustificável. E o rapaz é levado à ação, mas se sentia culpado. Na mesma carta, Wellington pede perdão.
Ou seja, psicopatas com um enorme poder de destruição estão escondidos na rede virtual?
ANA BEATRIZ: Aquela carta foi enviada para ele, quem sabe por e-mail, por alguém que sabia de tudo o que iria acontecer. E mais: esse grupo de psicopatas pode ter planejado cada detalhe e estimulado Wellington a seguir o plano. A polícia tem que ir atrás disso. Essa linha de investigação levará aos verdadeiros mentores desse crime. Existe hoje na internet um submundo da maldade. Algo terrível: são pedófilos, necrófilos, enfim, gente que exerce todo tipo de maldades. É possível afirmar que os idealizadores e mantenedores dessas comunidades são psicopatas que tiveram prazer ao acompanhar pela imprensa o que ocorreu com as crianças.
Após o crime de Realengo, várias comunidades foram criadas na internet exaltando o criminoso. Essas comunidades já têm milhares de seguidores. Como algo tão terrível pode atrair tanta gente?
ANA BEATRIZ: Quem cria essas comunidades tem prazer quando tem poder sobre a mente do outro, quando faz o outro sofrer. A história desse rapaz é muito triste. Ele foi pinçado por alguma ideia perversa. Com isso, ele foi vítima de bullying real e, mais tarde, de ¿cyber bullying¿, porque essas comunidades nada mais são do que sites criados por pessoas perversas, que captam pessoas emocionalmente frágeis. Os que visitam essas comunidades não necessariamente são psicopatas mas, com certeza, são frágeis.