Título: Inflação no ar
Autor: Nogueira, Danielle
Fonte: O Globo, 17/04/2011, Economia, p. 35

Apesar da disparada de preços das passagens aéreas, os brasileiros continuam viajando como nunca, agravando os gargalos nos aeroportos do país. Dados do IBGE revelam que, nos últimos 12 meses, o preço médio dos bilhetes para dez destinos no Brasil subiu quase 50%. Em cidades como Belo Horizonte, o aumento chega a 65,04% no período. O Rio (48,16%) aparece em quinto lugar no ranking. Crescimento da renda, novas facilidades de parcelamento e aquecimento dos negócios explicam o movimento de alta, levando a previsões sombrias. Estudo da consultoria Bain & Company mostra que, no ano da Copa, em 2014, o nível de utilização dos 15 principais aeroportos do país será de 128%. Ou seja, estarão operando acima de sua capacidade. Na prática, o descompasso entre oferta e demanda deve se traduzir em mais filas para os passageiros, atrasos de voos e até novos aumentos das tarifas, dizem especialistas.

Com ganho de R$800 mensais, a empregada doméstica Regina Rocha aproveitou a proximidade da Semana Santa e convenceu a patroa a lhe dar uns dias de folga para visitar as tias em Belém. Foi a primeira vez que a carioca viajou de avião na vida e que pôs os pés na capital paraense:

- Aproveitei uma promoção, peguei minhas economias e paguei R$400 pela passagem, incluindo ida e volta - diz ela, que embarcou do Galeão na última quinta-feira, acompanhada da mãe.

Empresas ampliam vendas a prazo

Regina faz parte de um novo universo de passageiros que eram excluídos das viagens de avião até pouco tempo atrás, os 95 milhões de brasileiros da chamada classe C. O fator decisivo para a inclusão dessa leva de consumidores foi o avanço do rendimento médio mensal, que em fevereiro atingiu R$1.540,30 - alta de 3,7% ante igual mês de 2010, segundo os últimos dados disponíveis do IBGE.

A facilidade das vendas a prazo é outro fator que explica o fato de mais gente estar voando Brasil afora. Nem as recentes restrições ao crédito impostas pelo governo devem mudar a política de venda das empresas. Na TAM, por exemplo, clientes do Banco do Brasil e do Itaú Unibanco podem parcelar o valor dos bilhetes em até 48 vezes. Segundo a companhia, novas parcerias serão anunciadas em breve. Na Webjet e na Gol, as vendas a prazo podem ser feitas em até 36 vezes. E a Azul vai ampliar para 12 - hoje são dez - o limite de parcelas, nas compras com 60 dias de antecedência.

- O aumento da renda e as facilidade de pagamento são, sem dúvida, motores do crescimento da demanda. E isso só tende a agravar o gargalo aeroportuário - diz o especialista em aviação e sócio da Bain & Company André Castellini.

Paralelamente, o mercado corporativo - que responde por 65% a 75% das viagens no país - vem impulsionando a movimentação nos aeroportos e, por tabela, o preço médio das passagens. Como as companhias oferecem preços diferenciados para o mesmo voo, as poltronas mais baratas têm sido rapidamente ocupadas. E quem decide comprar o bilhete em cima da hora, o que ocorre com frequência entre os executivos, só encontra disponíveis as tarifas maiores.

Fundador da Azul prevê novo reajuste

Essa dinâmica é claramente percebida nas estatísticas do IBGE. As três cidades que lideraram o ranking de alta de preços dos bilhetes nos 12 meses encerrados em março não têm tradição turística: Belo Horizonte (65,04%), São Paulo (56,26%) e Curitiba (56,17%). A coleta retrata os voos domésticos e é feita semanalmente nos sites das duas maiores aéreas do país - TAM e Gol, que detêm 80% do mercado interno. O instituto diz que o aumento apurado no período também foi influenciado pelo efeito-calendário. Em 2011, o carnaval foi em março, quando os preços das passagens subiram 29%. No ano passado, a folia foi em fevereiro.

Ellos Nolli, presidente de uma empresa mineira de TV a cabo sentiu no bolso o custo mais alto das tarifas. Perdeu o voo que sairia do Rio para Belo Horizonte e teve de pagar o dobro por um novo bilhete para viajar horas depois pela mesma companhia:

- Nós que viajamos a negócios é que estamos pagando a conta da popularização das viagens de avião.

Na contramão dos voos domésticos, o preço das passagens internacionais tem se mantido praticamente estáveis nos últimos três anos, segundo levantamento feito a pedido do GLOBO pelo site Decolar.com. E, em alguns casos, chegaram a cair, ajudando a inflar o número de passageiros. A desvalorização do dólar no período (6%) é apontada como a principal razão para essa tendência. O preço médio para uma viagem a Paris, por exemplo, teve uma leve alta de 1,6% em dólares entre 2008 e 2010, de US$936 para US$951. Em reais, foi constatada queda de 2,7%, de R$1.712 para R$1.665.

É baseado nesse cenário e num crescimento anual de 9% do setor aéreo até 2014 que a Bain & Company projeta uma demanda de 17 milhões de passageiros em meses de pico no ano da Copa nos 15 principais aeroportos do país. Esses terminais concentraram cerca de 80% dos 13 milhões de passageiros que embarcaram ou desembarcaram por mês nos 67 aeroportos administrados pela Infraero em 2010. Os aeroportos de Vitória e Guarulhos estão entre os que enfrentam a pior situação: estarão usando 145% e 140% de sua capacidade em 2014, respectivamente. Galeão (94%) e Santos Dumont (90%) estarão perto do limite.

- São Paulo é o coração econômico do país. E Vitória tem crescido muito por causa do pré-sal. Isso se reflete no movimento dos aeroportos e, onde há gargalo, a tendência é de aumento de tarifas, filas e atrasos - diz Elton Fernandes, professor do Programa de Engenharia de Produção da UFRJ.

O reajuste acumulado de janeiro a abril de 28% do querosene de aviação (QAV) deve contribuir para a alta, já que o combustível responde por 30% dos custos operacionais das aéreas. Embora empresas como a Gol afirmem que "até o momento não vemos motivos para repasse de preços", o fundador da Azul, David Neeleman, diz que os repasses serão inevitáveis:

- Acredito que haverá um reajuste, mas apenas para as tarifas mais altas - disse.