Título: Ex-ministro revela que Lula vetou alta de juros no fim de seu mandato
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 17/04/2011, Economia, p. 36
BRASÍLIA. No último mês do seu governo, em dezembro, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou a retomada da alta de juros. Pouco antes, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, apresentou a Lula análises técnicas que revelavam a necessidade de aperto monetário, diante da escalada insistente da inflação e da deterioração das expectativas dos agentes econômicos. Segundo relato feito por um ministro da gestão anterior ao GLOBO, o ex-presidente foi enfático ao negar essa possibilidade em uma conversa com Meirelles. O adiamento do aumento da Taxa Selic, na avaliação unânime do mercado, dificultou a tarefa do BC de abrandar a fervura da inflação.
Na época, prestes a concluir o segundo mandato, Lula estava com popularidade elevadíssima e sinalizou para interlocutores que não tomaria uma medida impopular como a retomada da alta dos juros, faltando pouco para entregar a faixa presidencial a Dilma Rousseff. Isso sinalizaria um descompasso com o discurso de que entregava para a sucessora um governo com fundamentos econômicos sólidos.
"Não vai ter aumento dos juros no fim do meu governo. Agora, esse é um problema da Dilma. Fale com ela. Se tiver que subir juros, será no governo dela", teria dito Lula a Meirelles, segundo relato de um ministro.
No dia 8 de dezembro, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic foi mantida por unanimidade em 10,75% ao ano. Fora o terceiro encontro do Copom, desde julho, no qual a taxa ficou estável.
Oficialmente, interferência sempre foi negada
Acabou prevalecendo o ponto de vista de Lula, observou um assessor palaciano. Com isso, sobrou para o governo Dilma o desgaste político de retomar a subida dos juros, o que aconteceu em janeiro e fevereiro. Oficialmente, sempre foi negada pelo Planalto e pelo BC qualquer interferência na condução da política monetária.
Segundo integrantes do governo Lula, para manter a Taxa Selic sem descuidar do controle da inflação, o BC teve que anunciar, dias antes da reunião do Copom, em 3 de dezembro, a elevação dos compulsórios e a consequente retirada de R$61 bilhões da economia. Também foram instituídas barreiras ao financiamento de longo prazo. A medida contribuiu para pressionar a elevação dos juros bancários e conter a expansão do crédito - um dos pilares do consumo e da inflação.
Hoje, há o reconhecimento reservado dentro do Palácio do Planalto de que a retomada da elevação dos juros deveria ter acontecido em dezembro, assim como a aplicação de medidas macroprudenciais. Na ocasião, o Banco Central argumentou oficialmente que "prevaleceu o entendimento entre os membros do comitê de que será necessário tempo adicional para melhor aferir os efeitos dessas iniciativas (medidas macroprudenciais) sobre as condições monetárias".
Em dezembro, O GLOBO antecipou que, ainda na transição, Dilma já estava preparada para endossar a retomada da alta dos juros. O início de um novo ciclo de aperto monetário era visto como o primeiro grande teste na área econômica. O recado foi uma forma de dar um sinal público ao mercado de que o BC teria autonomia na sua gestão.
As duas reuniões do Copom do governo Dilma - em janeiro e fevereiro - elevaram, cada uma, os juros em 0,5 ponto percentual, para os atuais 11,75% ao ano. O próximo encontro será na terça e na quarta-feira. No Palácio do Planalto, a expectativa é de que ocorra a última elevação dos juros em 2011. O mercado estima que ela será de 0,5 ponto.
Segundo relatos, Dilma está afinada com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Um ministro ressalta que, diferentemente do que deseja o mercado, ela não acredita em política monetária drástica:
- Pelo contrário, Dilma está preocupada em não errar na dosagem dos juros, para depois descobrir que o remédio foi amargo demais.
Nos bastidores, Dilma teme elevar muito a taxa de juros e, com isso, favorecer ainda mais a entrada de dólares no país. Ela tem se preocupado com a forte desvalorização da moeda americana. Nos últimos dias, cresceu em setores do governo a defesa de que os juros deveriam subir 0,25 ponto, e não 0,5 ponto, como está sendo esperado.
Ela tem ouvido integrantes do governo sobre o assunto, como o próprio Tombini e o titular da Fazenda, Guido Mantega, além do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e ministros próximos, como o chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, e o secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa.
Ainda assim, Dilma tem desautorizado qualquer debate interno ou público sobre medidas para conter a desvalorização do dólar. Segundo um interlocutor, a presidente tem deixado claro que ela é quem está no comando da economia.