Título: A inflação é algo que preocupa a todos
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Fonte: O Globo, 17/04/2011, Economia, p. 37

Presidente do HSBC Brasil desde 2009, o engenheiro aeronáutico Conrado Engel já vê o país ganhar espaço na estratégia global do grupo. Depois de a subsidiária no Brasil passar do quinto para o terceiro maior mercado do HSBC - com alta de 61% no lucro no ano passado, a R$1,1 bilhão -, vai ampliar em até 30% a força de vendas no país, com a contratação de mil gerentes este ano. A ideia é ampliar a capacidade de negócios para alcançar o crescimento orgânico de 20% estimado para 2011, considerando que, pela consolidação do setor financeiro, Engel não enxerga oportunidades de aquisições.

A expectativa positiva para os negócios no ano, no entanto, não significa que o cenário macroeconômico não preocupa.

- A inflação é algo que preocupa a todos - afirma Engel.

Para o executivo, fatores como preços de commodities em alta, pleno emprego e crescimento da massa salarial continuarão pressionando a inflação.

Lucianne Carneiro

Quais os riscos que o HSBC vê para a inflação hoje?

CONRADO ENGEL: A inflação é algo que preocupa a todos. Nossa projeção para 2011 é algo entre 6% e 6,3%, convergindo para a meta no fim de 2012. Há um componente importante, que é o óbvio aumento do preço das commodities. E isso deve continuar por causa do crescimento populacional e a expansão maior dos países emergentes. No Brasil, uma parcela de 60% da economia é consumo doméstico, que está bastante pressionado pela situação de pleno emprego e pelo crescimento da massa salarial. Esses fatores em conjunto vão continuar pressionando a inflação.

Vocês estão vendo uma postura mais leve do BC com a inflação?

ENGEL: O Banco Central acredita que as medidas macroprudenciais tomadas em dezembro terão ação ao longo do ano. O próprio crescimento do crédito no primeiro trimestre já mostra certa desaceleração. Mas temos que ver as leituras nos próximos meses para confirmar se estamos nessa direção.

"O câmbio vai continuar valorizado"

O real continuará apreciado?

ENGEL: O câmbio vai continuar valorizado. Ainda há uma liquidez bastante grande no mundo e não se vê um aumento da taxa de juros nos Estados Unidos este ano. Outro aspecto é que o Brasil é um ponto de investimento. No mundo que vemos para frente, os países emergentes crescem mais, o consumo de commodities será maior, então o investimento no Brasil vai continuar forte.

O Brasil passou de quinto para terceiro maior mercado do HSBC em 2010. O que puxou?

ENGEL: O Brasil é importante pelo tamanho da economia e pelo bônus populacional que terá nos próximos 20 anos. Somos o número um em emissões de títulos de empresas no exterior, o que alavanca a distribuição global, estamos crescendo forte na intermediação dos fluxos de negócios entre Brasil e China e também no mercado premier, formado por clientes de mais alta renda. E crescemos muito onde o Brasil avança, como crédito imobiliário e financiamento a pequena e média empresa no Brasil. Queremos explorar cada vez mais nossa capacidade global: o HSBC está em 88 países.

De que forma este crescimento se reflete na estratégia global?

ENGEL: É claro que reforçou a importância estratégica do Brasil, há grande atenção para o mercado brasileiro. O novo diretor-executivo, Stuart Gulliver, veio ao Brasil em fevereiro, conversou com clientes, entendeu a estratégia e viu que podemos crescer ainda mais. Em setembro, fará aqui uma reunião do Comitê Executivo do grupo, responsável pela gestão da estratégia global. A consequência é que vamos aumentar entre 25% e 30% a estrutura de vendas este ano, contratando mil novos gerentes no Brasil para expandir a capacidade de negócios.

O setor financeiro acabou de passar por duas grandes fusões. Há mais espaço para crescer em alta renda por isso?

ENGEL: Sem dúvida. Queremos o cliente de alta renda, temos ofertas diferenciadas, principalmente nossa capacidade global. E as fusões nos trazem inúmeras oportunidades e nos permitiram ganhos de mercado. Mas a maior parte dos novos clientes vem da proposta de conexão global e do crescimento da estrutura de suporte em nossas agências.

O HSBC vai comprar outro banco no Brasil?

ENGEL: O mercado financeiro está bem consolidado. Não há oportunidades de aquisições. O HSBC está bem estruturado para obter um crescimento orgânico de 20% este ano.

O HSBC busca avançar no ranking de bancos?

ENGEL: Somos o quarto maior banco privado do Brasil, um grande banco médio. Temos 7% dos depósitos, 5% do crédito para pessoas jurídicas e 4,5% em pessoas físicas. A Losango tem 20% do financiamento ao consumo. Mas o salto no ranking é muito grande. Vamos crescer em participação de mercado, mas continuaremos em quarto.