Título: Oposição vê com ceticismo reforma em Cuba
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Fonte: O Globo, 18/04/2011, O Mundo, p. 26

Proposta de limitar mandato é considerada "irônica" por não vir acompanhada de permissão de novos partidos

O PRESIDENTE de Cuba (no alto, à esquerda) discursa durante o congresso do Partido Comunista: proposta não deve afetar seu governo

HAVANA. Opositores ao regime cubano consideraram ¿irônica¿ a proposta do atual presidente do país, Raúl Castro, de limitar a dois períodos de cinco anos os mandatos políticos. A ideia foi apresentada durante o discurso de abertura do 6º Congresso do Partido Comunista, no sábado. Raúl Castro descartou o uso de ¿terapias de choque¿, admitiu pela primeira vez que a situação do país é crítica, e que esta é a última oportunidade para sua geração consertar os erros do passado. Mas, para a oposição, é necessária e urgente a democratização da sociedade, com autorização para novos partidos, e não apenas limitar mandatos do Partido Comunista.

¿ É irônico propor limitar a dois períodos porque eles têm estado no poder há 50 anos ¿ disse Manuel Cuesta Moria, do Arco Progressista.

Segundo Cuesta Morua, com essa proposta Raúl Castro está dizendo que ¿seguirá governando até seus 90 anos¿. Para ele, o discurso não atendeu às expectativas de mudanças. Com 79 anos, o líder cubano substituiu seu irmão Fidel provisoriamente em 2006 e definitivamente em 2008, quando este renunciou por motivos de saúde, depois de ter governado a ilha desde 1959.

Para outro oposicionista, Oscar Espinosa Chepe, a medida ajuda a democratização interna do partido comunista. Mas Chepe também faz ressalvas:

¿ Há que se permitir que existam mais partidos ¿ acredita. ¿ Eles (o governo cubano) se deram conta de que, hoje, existem poucos líderes mundiais depois de tudo que aconteceu no Oriente Médio.

O acadêmico cubano Arturo Lopez-Levy, da Universidade de Denver, nos EUA, acha que Cuba tem a oportunidade de criar novas instituições:

¿ A recomendação do presidente Raúl Castro representa um passo histórico para a criação de formas institucionais e coletivas de liderança.

Além da mudança no período permitido para os mandatos, a eliminação gradual da chamada ¿libreta de abastecimento¿ também foi um tema bastante debatido. As transformações previstas dão conta do corte de mais de um milhão de empregos estatais e a eliminação de mais subsídios, além da descentralização da economia e de projetos sobre a legalização da venda de carros e casas.

O discurso do presidente cubano levantou especulações sobre novos e jovens líderes, como Lazaro Exposito ou Marino Murillo, ex-ministro da Economia, que foi promovido para uma posição de comando na implementação das reformas econômicas. O atual Partido Comunista ainda é formado por veteranos da época da revolução, com idades entre 78 e 87 anos.

Fidel Castro justifica sua ausência no desfile

Castro também criticou o bloqueio americano a Cuba. Segundo ele, durante o governo de Barack Obama as ações contrárias à ilha se intensificaram, e houve ainda o ¿financiamento de projetos para promover diretamente a subversão, provocar a desestabilização e interferir em nossos assuntos internos¿.

A ausência de Fidel Castro no desfile militar que marcou a abertura do congresso (e os 50 anos da vitória de Cuba no episódio que ficou conhecido como a invasão da Baía dos Porcos) foi sentida não só pelos moradores da ilha como também pelo resto do mundo. Aos 84 anos, Fidel justificou sua ausência no evento. O forte calor teria impedido a participação do ex-presidente cubano, que ainda afirmou ser um ¿soldado das ideias¿. Ele assistiu à parada pela televisão.

¿ Doeu quando vi que alguns de vocês me procuravam na tribuna. Pensava que todos compreenderiam que já não posso fazer o que tantas vezes fiz. Podia estar na praça por talvez uma hora debaixo do sol e no calor, mas não por três horas ¿ justificou Fidel, em um artigo publicado na imprensa oficial cubana. ¿ Eu prometi que seria um soldado das ideias, e esse dever ainda posso cumprir.

No mês passado, o ex-presidente cubano já havia renunciado ao cargo de primeiro secretário do Partido Comunista. Fidel ainda disse que apreciou o sentimento de orgulho do país ¿nas palavras de Raúl e no rosto dos delegados do partido¿, e destacou o avanço das medidas para modernizar o modelo econômico da ilha, mesmo mantendo a linha socialista.

¿ Vale a pena ter vivido para ver o espetáculo, e vale a pena recordar sempre os que morreram para torná-lo possível ¿ completou Fidel sobre o desfile.

Ontem, durante o dia, os debates das comissões sobre a análise de um documento de 311 pontos foram conduzidos ¿ o congresso partidário termina amanhã. O evento foi precedido por uma discussão entre militantes e a população, e é o que define as políticas do país pelo quinquênio seguinte. A expectativa é que também se saiba quem será o número dois do partido, já que, com a renúncia de Fidel, Raúl deve ser nomeado primeiro-secretário.

População quer sangue novo no governo cubano

Para boa parte dos cubanos, as propostas foram bem recebidas e devem trazer sangue novo para o governo, já que a ideia de Castro é, de fato, rejuvenescer o comando do país. A aposentada Cristina Mesa, 77 anos, disse que os líderes cubanos finalmente reconheceram o que outros já perceberam.

¿ Está muito claro que o país tem que abrir espaço para os jovens e confiar neles. Não há outra escolha ¿ afirmou. ¿ O limite é uma maneira eficiente de prevenir quem quer que seja de acreditar que pode ficar num cargo para sempre. Se eles governarem bem, eles ficam. Se não, eles saem, e isso tem de ser decidido pelo povo.

A estudante Laritza Martinez disse que a proposta foi uma surpresa:

¿ Não esperava ouvir isso. É fantástico que, na política, nós poderemos ser iguais ao resto do mundo. Nada é perfeito, mas isso mostra que Raúl realmente quer modernizar o país.

No entanto, uma parcela da população continua cética, como a líder do grupo dissidente Damas de Branco, Laura Pollan:

¿ O que eles estão fazendo é ganhar tempo para permanecer no poder.