Título: China cresce 9,7%, mas inflação pode forçar freio
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Fonte: O Globo, 16/04/2011, Economia, p. 27
Economia desacelera no primeiro trimestre. Preços sobem 5,4% em março, na maior alta desde julho de 2008
PEQUIM e RIO. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) da China desacelerou levemente no primeiro trimestre deste ano, para 9,7%, na comparação com os três meses anteriores, quando houve expansão de 9,8%, informou ontem a Agência Nacional de Estatísticas. O resultado, porém, ainda é muito expressivo. Já os preços ao consumidor avançaram 5,4% em março frente ao mesmo mês de 2010. Essa é a maior alta inflacionária na China desde julho de 2008, mês que antecedeu o início dos Jogos Olímpicos de Pequim, e ameaça as perspectivas futuras de expansão da economia. Economistas haviam previsto um crescimento trimestral do PIB de 9,5% e uma inflação de 5,2% em março.
Para evitar um superaquecimento econômico, Pequim está tentando moderar o crescimento do PIB e controlar a inflação. Os resultados, porém, de acordo com especialistas, têm sido mistos. A expansão da economia está um pouco abaixo do crescimento anual de 2010, de 10,3%, mas a pressão inflacionária aumentou.
Os líderes chineses definiram a luta contra a alta de preços como prioridade, devido a seu potencial de gerar protestos sociais. A inflação foi um dos elementos desencadeadores de protestos a favor da democracia na Praça da Paz Celestial, em 1989, que terminaram com a morte de centenas - ou milhares, segundo algumas fontes - de pessoas após a intervenção armada ordenada pelo governo. E o custo dos alimentos é um assunto altamente sensível, já que as famílias pobres na China gastam até metade de sua renda com comida. Só em março, os preços dos alimentos registraram alta de 11,7% .
- Os preços subiram muito - diz o aposentado Wang Jianren, de 56 anos. - É muito ruim ter os preços subindo e descendo. Preços instáveis deixam as pessoas nervosas e a sociedade instável. Nesse sentido, nossa geração sente até alguma saudade da Era Mao.
Desde outubro, já houve quatro altas nos juros
Debarati Ghosh, da consultoria Economist Intelligence Unit (EIU), minimiza o risco de conflitos políticos na China como reação à inflação elevada:
- A China é fundamentalmente diferente de países do Oriente Médio e do norte da África. A maioria dos cidadãos conquistou melhores condições de vida nos últimos anos e esperam mais melhorias. Há pouco desejo de mudança.
Mas os preços têm se mantido altos apesar das medidas tomadas pelas autoridades, como a elevação na oferta de grãos e verduras, as quatro altas nos juros desde outubro e o aumento para 20% do compulsório dos bancos, com o objetivo de limitar a quantidade de dinheiro que pode ser emprestada. O primeiro-ministro, Wen Jiabao, pediu na quinta-feira mais esforços para controlar a inflação.
Por isso, especialistas preveem novas medidas para conter os preços, entre elas, altas das taxas de juros e restrições extras à concessão de créditos. Para a analista Debarati, deve-se esperar um aperto monetário ainda maior na China este ano para enfrentar a inflação.
- A inflação é o principal desafio da economia chinesa em 2011.
Na avaliação de Debarati, no entanto, não são apenas os preços de alimentos que estão pressionando a inflação. Também pesa o aumento de custos dos insumos para a indústria, incluindo os reajustes salariais.
Bovespa avança 0,61% e fecha aos 66.684 pontos
A projeção da EIU é que o crescimento da economia chinesa desacelere dos 10,3% registrados no ano passado para 9% em 2011 e 8,7% em 2012. A meta do governo para 2011 é de 8% de crescimento. Já a inflação deve encerrar o ano em 5%, segundo a EIU.
Além da inflação, o preço dos produtos exportados pela China também subiu por causa da alta das commodities, das matérias-primas e dos custos trabalhistas. E como a China é o maior exportador do mundo, o que ocorre no país tende a afetar os preços em outras partes do mundo. Nas maiores áreas exportadoras da China, os patrões reclamam da diminuição da oferta de trabalho e do aumento nos custos da mão de obra. O governo encorajou salários mais altos com o objetivo de reduzir a distância entre pobres e ricos e entre a renda nas áreas urbanas e rurais. Mas isso teve impacto sobre o preço da produção.
O atual boom da economia chinesa ganhou força no início de 2009, em plena crise financeira global, quando o governo incentivou fortemente o crescimento, com um pacote de estímulo US$4 trilhões e com a liberação de empréstimos de bancos estatais.
Após operar sob forte volatilidade, em parte por causa dos dados da China, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) interrompeu ontem uma sequência de cinco pregões em queda. O Ibovespa, índice de referência do mercado, avançou 0,61%, aos 66.684 pontos, puxado principalmente pela Petrobras. Bons indicadores da economia americana também influenciaram na alta. Mesmo assim, o índice encerrou a semana em queda de 2,96%, pior desempenho semanal desde o fim de janeiro.
COLABORARAM Lucianne Carneiro e Bruno Villas Bôas, com agências internacionais