Título: No meio do caminho, os juros
Autor: Eichenberg, Fernando; Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 16/04/2011, Economia, p. 25
Presidente do BC diz que aperto monetário está na metade e eleva apostas de que taxa básica subirá 0,5 ponto
Opresidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, subiu ontem o tom ao comentar as medidas que podem ser adotadas no país para controlar a inflação. Em apresentação em Washington, Tombini disse que o país está "no meio de um ciclo de aperto monetário" e que é preciso cuidado com a grande quantidade de dinheiro em circulação na economia, o que poderia colocar em risco a estabilidade financeira. As declarações elevaram as apostas de analistas de que os juros básicos da economia vão subir mais fortemente na reunião da próxima semana do Comitê de Política Monetária (Copom). Antes, as projeções se dividiam entre alta de 0,25 e 0,5 ponto percentual, para 12% e 12,25% ao ano, respectivamente. A maioria espera agora que a autoridade monetária eleve a Selic em 0,5 ponto.
- Estamos no meio de um ciclo de aperto monetário. Estamos apertando as condições monetárias no Brasil e, por outro lado, estamos lidando com os efeitos dos fluxos de capital - disse, pela manhã, durante encontro sobre perspectivas econômicas para a América Latina, no Brookings Institution, think tank, com sede em Washington.
Tombini colocou o Brasil entre os países com mais altas taxas de juros, e disse que estão sendo adotadas medidas para evitar novas ameaças:
- Já aumentamos os juros em 300 pontos-base (3 pontos percentuais) desde 2010. E temos ainda trabalho a fazer pela frente. Precisamos ter cuidado para que os enormes níveis de liquidez não coloquem em risco a estabilidade financeira.
Projeções de juros têm alta. Dólar cai
O presidente do BC expressou sua preocupação com o rápido incremento do crédito no país.
- Muito dinheiro está sobre a mesa, e esse dinheiro forneceu um impulso ao crescimento do crédito no Brasil, em uma velocidade que achamos está maior do que a adequada.
Os comentários provocaram um curto-circuito no mercado. Como o presidente do BC discursou em inglês, operadores se questionaram qual seria a tradução mais precisa para a frase "in the middle of a tightening cycle", proferida no Brookings Institution: se Tombini quis dizer "no meio" ou "em meio" a um ciclo de aperto.
Pela lógica do mercado, se o sentido que Tombini quis imprimir era "no meio do aperto", isso significa que o país ainda precisa de grandes ajustes para que a inflação caminhe para o centro da meta, de 4,5% ao ano. No último boletim Focus, do BC, a previsão dos analistas para a inflação oficial em 2011 chegou a 6,26%, próximo de romper o teto da meta de inflação do governo, de 6,5%. Assim, o Copom tenderia a aplicar uma dose maior de aumento dos juros na próxima reunião. Para uma outra parte, o sentido correto seria "em meio", o que teria um significado de "em curso" e, na prática, não representaria uma indicação para a reunião. Neste entendimento, quem tinha apostas em alta de 0,25 ponto tenderia a manter a posição.
- Os investidores andam muito tensos para a próxima reunião. Nunca as apostas estiveram tão divididas. O mercado acabou pinçando uma frase de um discurso - disse Luiz Eduardo Portella, sócio do Banco Modal.
O superintendente de Tesouraria do Banco Banif, Rodrigo Trotta, afirma que, independentemente do debate, a declaração foi forte e elevou a parcela de investidores que acreditam em alta de 0,5 ponto na próxima reunião.
Em Washington, o presidente do BC disse ainda que o Brasil já está se preparando para o novo cenário que emergirá com a recuperação das economias avançadas, que poderá provocar uma repentina saída de capital estrangeiro do país.
- Devemos estar prontos para a estratégia de saída das economias desenvolvidas. Chegará o momento em que as condições financeiras e monetárias começarão a se normalizar nos Estados Unidos e em outros países avançados.
À tarde, numa conferência no Banco Interamericano de Desenvolvimento, Tombini afirmou que o Brasil poderá adotar mais medidas de controle de capitais, mas não especificou quais seriam.
A declaração de Tombini sobre os juros também contribuiu para pressionar o dólar comercial, num dia em que a moeda já apresentava tendência de desvalorização no mercado internacional. Juros mais altos atraem mais capital externo. A moeda chegou a recuar 0,44%, mas fechou em queda menor, de 0,12%, a R$1,578.
Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), os contratos que projetam os juros para vencimentos de curto e médio prazos fecharam em alta. Os com vencimento em maio de 2010, o mais líquido do pregão, avançaram de 11,80% para 11,83% ao ano. Já os contratos para janeiro de 2012 subiram de 12,25% para 12,28%. Ao mesmo tempo em que a expectativa gerada por Tombini pressionou os contratos mais curtos, os de maior prazo cederam. Os contratos com vencimento em janeiro de 2013 recuaram de 12,67% para 12,64% e os de janeiro de 2014 cederam de 12,76% para 12,72%.
O economista Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, diz que o mercado segue dividido:
- Houve mudança clara na postura do BC. O mercado estava habituado com os antigos diretores, que buscam convergir a inflação para o centro da meta no menor tempo possível - explica Leal. - Agora, existem dúvidas sobre o prazo, o tamanho do aumento dos juros e o mix com as medidas macroprudenciais.
FMI alerta para superaquecimento
O diretor do Departamento de Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Nicolas Eyzaguirre, sublinhou ontem os riscos de superaquecimento e de inflação na América Latina. No caso do Brasil, disse não saber se as metas serão atingidas.
- O governo está tentando controlar a dinâmica da economia tanto em termos de mais consolidação fiscal quanto com alta de juros pelo Banco Central. Se isso será o suficiente para baixar a inflação de 12 meses é algo que teremos de esperar para ver.
(*) Correspondente
JUROS DE TODAS AS LINHAS DE CRÉDITO SUBIRAM EM MARÇO, DIZ PROCON-SP, na página 26