Título: França quer fechar fronteiras ao bloco europeu
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 23/04/2011, O Mundo, p. 27
PARIS. A França vai apertar para valer o cerco nas fronteiras com o objetivo de impedir a entrada de milhares de imigrantes clandestinos da Líbia e da Tunísia. Fontes do governo, citadas pela imprensa francesa, revelaram que Paris pedirá a suspensão dos acordos de Schengen ¿ que preveem a livre circulação de pessoas no bloco europeu.
A decisão de Paris acontece num momento em que o partido de direita no poder ¿ o UMP, do presidente Nicolas Sarkozy ¿ começa a perder espaço para a extrema-direita, que faz uso político do medo a estrangeiros, sobretudo dos que vêm de países árabes. A combinação de uma economia fragilizada por crise internacional, desemprego entre jovens e problemas na integração de árabes das ex-colônias francesas tornou este medo ainda mais latente. Sarkozy amarga índices baixíssimos de popularidade, e as três ultimas pesquisas mostram que ele pode não ser reeleito nas eleições presidenciais de 2012.
O problema da imigração será o ponto sensível do encontro, na terça-feira, em Roma, entre Sarkozy e o premier italiano, Silvio Berlusconi. A Itália ficou furiosa quando a França bloqueou, no domingo, o tráfego ferroviário entre os dois países para impedir que tunisianos que chegaram à Itália fossem à França.
Confrontada com uma verdadeira invasão de imigrantes, a Itália pediu inicialmente ajuda a Paris e outros governos europeus. Segundo os italianos, muitos clandestinos da Tunísia queriam chegar à França para encontrar familiares já radicados no país. Mas Paris se recusou a ajudar. A Itália, então, decidiu fazer isso na marra: deu vistos de estadia de 6 meses para mais de 20 mil tunisianos. Pelos acordos de Schengen, isso dá direito à livre circulação nos 25 países que fazem parte do acordo.
A atitude da Itália enfureceu não apenas os franceses, como outros europeus. O secretário de política de imigração e asilo da Bélgica, Melchior Wathelet, reagiu sem diplomacia:
¿ A Itália nos enganou usando regras europeias ¿ acusou.
De janeiro a 5 de abril, 22 mil tunisianos desembarcaram na ilha de Lampedusa, na Itália. Pelos acordos de Schengen, os membros da UE têm o direito de dar vistos temporários de estadia a pessoas de fora do bloco. Mas ninguém sabe agora o que fazer com o fluxo de árabes que fogem das revoltas em seus países. Para a Comissão Europeia, a Tunísia não é um país em guerra. Portanto, tunisianos não podem pedir asilo.
Para analistas, crise pode pôr fim a pilar da UE
A França preside no momento a União Europeia. E vai insistir nisso: que seja pensado um mecanismo nos acordos de Schengen que permitam a suspensão temporária quando houver um problema como o atual. Na briga com a Itália, a França também insiste que, segundo os acordos, é responsabilidade do primeiro país que recebe os imigrantes administrar o problema.
Para alguns analistas, a incapacidade dos europeus em administrar a crise atual pode significar o fim dos acordos de Schengen ¿ isto é, um dos pilares da Europa unida, que faz com que hoje 400 milhões de habitantes de 25 países possam circular livremente. É o que sonha a extrema-direita francesa, e vários movimentos populistas e xenófobos no continente, como a Liga do Norte, na Itália.