Título: Rainha faz 85 anos sem sinal de deixar a coroa
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 22/04/2011, O Mundo, p. 23
Apesar de reduzir agenda, Elizabeth II se mantém firme no trono. Charles se torna o herdeiro há mais tempo na fila de espera
A RAINHA Elizabeth II deixa a Abadia de Westminster com o príncipe Phillip, cercada por crianças: cerimônia na mesma igreja onde o neto se casará
LONDRES. Aos 85 anos, completados ontem (ainda que a comemoração oficial seja apenas em junho), a rainha Elizabeth II vem reduzindo substancialmente sua agenda de compromissos públicos, sobretudo viagens internacionais. Engana-se, porém, quem pensa numa preparação para pendurar a coroa. Abdicar é um verbo banido do dicionário da soberana, ainda que sua resistência crie embaraços para o filho mais velho: na semana de aniversário da mãe, o príncipe Charles entrou para a História do Reino Unido como o herdeiro ao trono com mais tempo de espera. E o futuro não promete ser mais fácil que os últimos 59 anos, dois meses e 15 dias.
Afinal, no dia 29, Charles casará um filho mais jovem e que ocupa um espaço mais especial no imaginário popular. Ainda mais porque William escolheu para esposa Kate Middleton, a primeira noiva sem origens nobres a se juntar ao núcleo principal dos Windsor em mais de 350 anos. E William é filho também de Diana, a falecida princesa que expôs ao mundo a vida entre as paredes do Palácio de Buckingham, inclusive a infidelidade e a frieza do ex-marido.
Em teoria, Parlamento poderia dar trono a William
Adicione à questão o fato de William ser dotado de carisma e de um jeito de galã de filme de Richard Curtis (roteirista de comédias românticas como ¿Quatro casamentos e um funeral¿ e ¿O diário de Bridget Jones¿), suficiente para nos últimos anos ajudar a isolar ainda mais o movimento republicano. E o fato de o pai, em 2005, ter decidido se casar com a amante, Camilla Parker-Bowles. É pouco surpreendente que o desejo de ver o filho passando à frente do pai na linha de sucessão seja um assunto recorrente e devidamente registrado em pesquisas. Há seis anos, por exemplo, 41% dos britânicos defendiam William como próximo rei, contra 37% do pai.
Ainda que a cotação de Charles, de 62 anos, tenha melhorado na mais recente medição do YouGov para a revista ¿Prospect¿, 45% versus 37%, tampouco é sinal de entusiasmo popular com o futuro rei. Especialmente quando o mesmo YouGov revela que 65% dos britânicos querem que Elizabeth II continue no trono que ocupa desde 1952, contra apenas 25% favoráveis a uma abdicação.
Não que o público precise se preocupar. Na História britânica, apenas um soberano abdicou voluntariamente ¿ Edward VIII, em 1936, criando uma crise ao assumir publicamente o romance com Wallis Simpson, uma americana divorciada. Tal decisão teve efeitos profundos em Elizabeth II, já que a coroa caiu no colo de seu pai, George VI, um monarca tão despreparado para o trono que até sofria de gagueira, como ficou imortalizado no filme ¿O discurso do rei¿.
Em 1991, a própria rainha deixou claro num discurso que só pretendia sair morta do Palácio de Buckingham. A piada é que a notícia deixou Charles desesperado, pois sua avó, a rainha-mãe, viveu até os 101 anos.
¿ Charles já percebeu que pode nunca ser rei ou chegar ao trono em idade muito avançada, com chances de poucos anos de reinado. Seu legado também será avaliado de acordo com o terreno que preparar para seu sucessor. Isso não quer dizer que não será celebrado pelo povo. Ele tem consciência ecológica e faz um trabalho importante com instituições de caridade. É preciso lembrar que a monarquia tem uma ligação nostálgica muito grande com os britânicos ¿ explica o jornalista e historiador Robert Lacey, autor de uma biografia da rainha.
Mesmo que o movimento pró-William ganhasse força, os planos esbarrariam num problema legal, explica o principal especialista constitucional britânico, Vernon Bogdanor:
¿ O Parlamento poderia impedir um indivíduo de herdar o trono, mas isso jamais aconteceu e criaria uma crise constitucional. Devemos lembrar que Charles é mais do que bem preparado para ser rei, a começar por ter criado laços com minorias étnicas e religiosas.
E a julgar pela decisão de viver fora de Londres e seguir trabalhando como piloto de resgate da Força Aérea Britânica, William não parece ter a menor pressa de ser rei.