Título: Defesa dos direitos humanos sem concessões
Autor: Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 21/04/2011, O País, p. 10

Durante formatura de diplomatas, Dilma reafirma discurso contra violações e diz que segurança da ONU envelheceu

BRASÍLIA. No discurso que proferiu durante a formatura de novos diplomatas e em comemoração ao Dia do Diplomata, ontem, no Itamaraty, a presidente Dilma Rousseff reafirmou, com mais ênfase que nas vezes anteriores, que a questão dos direitos humanos está no centro das preocupações da política externa brasileira.

Dilma não citou casos específicos e procurou demonstrar que, ao pôr o tema em destaque, apenas dava continuidade a uma política já adotada no governo de seu antecessor e mentor político, Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, desde que foi diplomada, no fim do ano passado, a presidente tem deixado claro que os direitos humanos não serão deixados em segundo plano em sua gestão.

No governo Lula, a política externa foi mais focada em aumentar laços comerciais com países que nem sempre respeitavam os direitos humanos, como Irã, Guiné Equatorial e até mesmo a China. Foi a primeira manifestação pública de Dilma sobre o assunto em um evento voltado para servidores que cuidam das relações internacionais do país.

- A defesa dos direitos humanos, desde sempre, e mais ainda agora, está no centro das preocupações de nossa política externa - afirmou a presidente. - Vamos promovê-los e defendê-los em todas as instâncias internacionais, sem concessões, sem discriminações e sem seletividade, coerentemente com as preocupações que temos a respeito do nosso próprio país.

No mesmo tom, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, destacou que a política externa que será adotada pelo Brasil terá como critérios, entre outras coisas, a objetividade, a firmeza na promoção dos interesses nacionais e a ênfase na busca de resultados concretos nos planos econômico, comercial e da inovação.

- O idealismo como horizonte: tal como refletido no desejo de projetarmos em nossa ação externa o mesmo engajamento manifestado no plano doméstico com a justiça social, o combate à pobreza, o aperfeiçoamento do convívio democrático, o desenvolvimento sustentável, o compromisso com a promoção e proteção dos direitos humanos, sem seletividade ou politização.

ONU ENVELHECEU: "No momento em que debatemos como serão a economia, o clima e a política internacional no século XXI, fica patente também que, do ponto de vista da segurança, a ONU também envelheceu. Os eventos mais recentes nos países árabes e no norte da África mostram uma saudável onda de democracia, que desde o seu início apoiamos. Refletem também a complexidade dos desafios dos tempos em que vivemos. Lidamos com fenômenos que não mais aceitam políticas imperiais, certezas categóricas e as respostas guerreiras de sempre."

REFORMA NÃO É CAPRICHO BRASILEIRO: "Reformar o Conselho de Segurança das Nações Unidas não é, portanto, um capricho do Brasil. Reflete a necessidade de ajustar esse importante instrumento da governança mundial à correlação de forças do século XXI. Significa atribuir aos temas da paz e da segurança efetiva importância. Mais do que isso, exige que as grandes decisões a respeito sejam tomadas por organismos representativos e, por essa razão, mais legítimos."

OUTRAS REFORMAS: "As instituições internacionais de outrora, senhoras e senhores, se tornaram obsoletas. A governança econômica global herdada no século passado sucumbiu à crise financeira de 2008, juntamente com o dogma da infalibilidade dos mercados financeiros. O G-7 foi deslocado pelo G-20 na discussão das saídas para a crise e na condução das reformas que aumentaram o poder de voto dos países emergentes no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial. Mas há muito o que fazer. Há que reformar essa governança e dar a ela a representação que os países emergentes têm hoje no cenário internacional."

DIVERSIFICAÇÃO DE COMÉRCIO COM A CHINA: "Queremos aumentar nosso comércio, mas também diversificá-lo. Não temos porque envergonharmos de nossa condição de grande exportador de commodities. Mas, ao mesmo tempo, queremos expandir nossas exportações com valores agregados. Precisamos de mais investimentos recíprocos, mas esses investimentos têm de propiciar efetiva cooperação na área de pesquisa científica, tecnológica e inovação e propiciar a devida transferência de tecnologia de parte a parte."

AMÉRICA DO SUL É PRIORIDADE: "A América do Sul seguirá sendo prioridade da política externa do meu governo. Sinalizei essa prioridade ao fazer, à Argentina, minha primeira viagem ao exterior. Não há espaços para discórdias e rivalidades que nos separaram no passado. Os países do nosso continente tornaram-se valiosos parceiros políticos e econômicos do Brasil."

ESTADOS UNIDOS E EUROPA: "Estados Unidos e Europa seguirão representando importantes parceiros, com os quais mantemos e manteremos intensas relações construtivas e equilibradas. Foi muito relevante para os nossos povos e governos a visita do presidente Barack Obama ao Brasil. Ela, sem dúvida, dará mais vigor e dinamismo às relações entre os Estados Unidos e o Brasil."

NOVOS CANAIS: "A compreensão da universalidade de nossos interesses nos leva a estreitar as relações diplomáticas e abrir novos canais de diálogo político e de cooperação econômica com o continente africano e com o Oriente Médio. Essa iniciativa não se deve apenas, no caso da África, aos laços históricos e culturais que nos une. Ela leva em conta as enormes potencialidades desse continente, com os seus 800 milhões de habitantes e seu rico território. A África, sem sombra de dúvida, tem um futuro extraordinário."