Título: Salve-se quem puder
Autor: Antunes, Laura; Magalhães, Luiz Ernerto
Fonte: O Globo, 27/04/2011, Rio, p. 12
UM CARRO levado pela enxurrada fica preso numa estrutura de ferro na Praça da Bandeira
A DESOLAÇÃO de motoristas na Praça da Bandeira, onde a água encobriu a roda dos carros
NO BAIRRO do Maracanã, o passageiro sobe no teto de um ônibus isolado pelas águas
O TRÂNSITO CAÓTICO na Avenida Francisco Bicalho, onde os canteiros desapareceram sob as pistas alagadas: motoristas e passageiros ficaram horas dentro dos veículos
Laura Antunes, Luiz Ernerto Magalhães e Maria Elisa Alves
Pouco passava das 20h30m quando, anteontem, o Rio voltou, literalmente, a mergulhar no caos. A chuva torrencial ¿ a maior em volume concentrado dos últimos cinco anos ¿ escapou de todos os sistemas de monitoramento e prevenção implantados desde o trágico temporal de abril do ano passado e pegou de surpresa tanto a população como as autoridades, que somente às 21h35m, com as ruas já alagadas, decretaram estado de alerta no município. Em meio às já familiares cenas de cidadãos ilhados sem poder voltar para casa, ruas transformadas em rios, imóveis inundados, carros submersos e vias sem policiamento ou agentes de trânsito, o diferencial ficou por conta do fracasso da maioria dos mecanismos criados para minimizar os transtornos e evitar o caos.
Pouco funcionou ou funcionou tardiamente. O radar meteorológico importado dos EUA ao custo de R$2,5 milhões, inaugurado em dezembro, detectou a chegada da tempestade apenas ¿momentos antes¿, como admitiu ontem o prefeito Eduardo Paes. Em seu primeiro grande teste, o radar ¿ preparado, em tese, para analisar dados de nuvens de baixa altitude e prever chuvas com até quatro horas de antecedência ¿ mostrou ter limitações: no caso de Cumulus nimbus (nuvens que causam fortes precipitações), ele só consegue detectá-las com antecedência máxima de 30 minutos.
Inaugurado em 31 de dezembro, o Centro de Operações Rio também não conseguiu antecipar aos cariocas os problemas que estavam a caminho. Pouco depois do meio-dia de onteontem, o Twitter do centro divulgou que a tarde seria de ¿céu nublado, com possibilidade de chuva fraca¿. Às 19h12m, uma nova mensagem, ainda incapaz de alertar os moradores sobre os transtornos enviados pela natureza: ¿Novas instabilidades vindas do oceano provocarão pancadas de chuva isoladas na Zona Oeste do município¿, dizia o texto, sem destacar a Tijuca, a área mais afetada pelo temporal. Às 20h24m, veio a constatação do óbvio: o alerta, via Twitter, avisava: ¿Chove forte, neste momento, na Tijuca, Alto da Boa Vista, Santa Cruz, Barra da Tijuca e Santa Teresa¿. O informe sobre o alagamento da Praça da Bandeira foi divulgado no Twitter apenas às 21h29m. Seis minutos depois, foi divulgado que o Rio estava em estado de alerta, no qual a chuva forte poderia provocar alagamentos e deslizamentos isolados.
Sem alerta em tempo hábil, evidentemente, as ruas da cidade não ganharam o reforço de agentes de trânsito para orientar os motoristas ilhados ou sem saber por quais vias circular. Como no temporal de abril do ano passado, o trânsito ficou sem regras: motoristas trafegavam na contramão e até sobre calçadas para escapar dos pontos de alagamento. Operários da prefeitura também poderiam ter sido acionados para desentupir bueiros.
Mesmo nos comunicados à imprensa, o Centro de Controle errou no timing. Somente às 23h34m, com o caos já instalado, um e-mail chegou às redações: ¿Devido às fortes chuvas que caem na região da Grande Tijuca nas últimas horas, o Centro de Operações da Prefeitura do Rio recomenda aos motoristas que evitem a região¿. Infelizmente, a população já sabia disso.
Para prefeito, sistema funcionou
Nem as câmeras da CET-Rio foram capazes de ajudar os motoristas. Às 21h20m, em pleno temporal, o boletim de trânsito online do órgão exibia, por exemplo, imagens diurnas (com sol) da Praça da Bandeira, com a indicação de ¿trânsito bom¿. A explicação foi a de que houve falha na integração dos sistemas da CET-Rio com o Centro de Operações. Até os alertas de temporais emitidos pela Defesa Civil municipal, via SMS, para as pessoas cadastradas no serviço foram inoperantes: ou não chegaram ou chegaram já durante a enxurrada.
Apesar da série de falhas, Paes disse que o Centro de Operações cumpriu com o seu papel. Segundo ele, com a concentração de órgãos públicos num único espaço foi possível planejar ações práticas, como a implosão da pedra gigante que obstruiu a Grajaú-Jacarepaguá e remover detritos e carros enguiçados das ruas.
¿ O alerta por sirenes também funcionou. Nem todo mundo saiu de casa, mas as pessoas ficaram atentas. Só por já ter salvo uma vida, o investimento se pagou ¿ alegou ele, referindo-se ao rapaz que, ao ouvir a sirene, saiu da cama de casa, no Morro da Formiga, antes da parede do quarto desabar.
O prefeito, porém, reconheceu falhas, como a falta de atualização das informações das câmeras do boletim de trânsito. No entanto, Paes afirmou que o radar meteorológico é ¿o que existe de mais moderno no mercado¿ e que compraria um segundo equipamento se existisse algum mais confiável. Ele prometeu melhorar o sistema de previsão de chuvas, acrescentando que a expectativa é de que dentro de dois meses comece a operar o programa PMAR (Previsão Meteorológica de Alta Resolução), desenvolvido pela IBM, que permitirá prever com 48 horas de antecedência a intensidade das chuvas e os bairros a serem atingidos.
Os institutos de meteorologia chegaram a prever as chuvas no Rio, mas subestimaram a precipitação: entre 25 e 50 milímetros (em uma hora). Ontem, porém, em uma hora chegou a chover 99,6 milímetros ¿ e 274 milímetros em 24 horas.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), por exemplo, manteve um aviso de risco de chuvas fortes (a partir de 50 milímetros em uma hora) desde domingo para todo o estado. Já Instituto Climatempo divulgou um alerta ainda mais atualizado: às 19h43m, um boletim em seu site informava sobre o risco de chuvas fortes (acima de 25 milímetros em uma hora) e de rajadas de ventos nas próximas horas no Rio, em Niterói e na Baixada Fluminense.
Embora sem indicar a precipitação, o Centro de Previsão de Estudos Climáticos (Cepetec) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), localizado em Cachoeira Paulista, também emitiu um boletim sobre chuvas fortes, ainda com mais antecedência: às 11h35m ¿ cerca de 12 horas antes do temporal.
No entanto, mais uma vez, os órgãos públicos demostraram falta diálogo no repasse de informações. Às 18h de anteontem, com base em prognósticos para as horas seguintes, o Sistema de Meteorologia do Estado (Semerj) emitiu um alerta. Mas a capital não foi incluída.
¿ As informações tomaram como base dados do radar da Aeronáutica do Pico do Couto (Teresópolis) sobre a aproximação de uma frente fria. O Semerj emitiu o alerta, mas não comunicou à capital porque ela dispõe de sistema próprio ¿ justificou o subsecretário estadual de Ciência e Tecnologia, Luiz Edmundo Costa Leite.
Para José Ricardo de Almeida, professor do Instituto de Meteorologia da UFRJ, as condições para o forte temporal existiam e foram fornecidas por diferentes fontes:
¿ Nos dias anteriores, fez calor muito forte, favorecendo a evaporação e, assim, o aumento da umidade do ar. Associado a isso, havia ainda a previsão da chegada de uma frente fria, que entraria em contato com o ar quente. Já seria o suficiente para se mobilizar equipes e tentar evitar tantos problemas na volta para casa.