Título: União para resgatar o fascínio pela monarquia
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 28/04/2011, O Mundo, p. 32

Príncipe William e Kate participam de ensaio geral para o casamento de amanhã, que promete modernizar a realeza

SOLDADOS ESCOLTAM uma carruagem pela avenida The Mall, centro de Londres, num ensaio para a cerimônia de amanhã (acima); ao lado, fãs acampam em frente à Abadia de Westminster, onde o príncipe William se casará com a plebeia Kate Middleton. Abaixo, os noivos chegam, junto com o príncipe Harry, à abadia para um ensaio do enlace: expectativa é que dois bilhões de pessoas acompanhem o evento

Houve outras ocasiões do gênero nos últimos 30 anos. Nenhuma, porém, chegou perto da expectativa com que fãs da monarquia britânica vão se aglomerar nas ruas de Londres ou à frente de telas ao redor do mundo amanhã, quando a partir de 11h (7h de Brasília), o príncipe William e Kate Middleton farão muito mais do que consolidar um relacionamento que mesmo sem o protocolo da nobreza já teria jeito de conto de fadas. Do ¿sim¿ na Abadia de Westminster à aparição na sacada do Palácio de Buckingham, o casal estará intensificando os esforços na operação de resgate do fascínio despertado pela mais famosa família real do mundo.

Se em 1981 o casamento do príncipe Charles com Diana foi um marco para a imagem da família real, o desmanche em praça pública da união entre o herdeiro do trono e a Princesa do Povo resultou numa publicidade negativa que teve sua intensidade multiplicada pela relativa frieza com que o Palácio de Buckingham lidou com a morte de Lady Di ¿ da demora em colocar as bandeiras do palácio a meio-mastro à relutância da rainha Elizabeth II em vir a público prestar homenagem à ex-nora, ainda que o relacionamento entre as duas nunca tenha sido dos melhores.

Para britânicos, um casal `cool¿ que já mora junto

Agora, porém, o filho mais velho da princesa sobe ao altar ao lado da primeira plebeia a se juntar ao círculo principal da Casa de Windsor em 350 anos. Sua história pessoal, ainda que contada à revelia (Kate deu apenas uma entrevista até hoje, ao lado do príncipe William durante o anúncio do noivado, em novembro), também encontrou respaldo junto ao público. Tanto por desafiar os estereótipos de classe britânicos ¿ Diana era filha de um barão, por exemplo ¿ quanto por sintonizar um pouco mais com as expectativas de mulheres mais modernas.

¿ É um casal completamente cool. Está subindo ao altar quase aos 30 anos, morou junto durante os últimos sete. Outro dia li também que Kate é primeira futura rainha com um diploma universitário (História da Arte)! ¿ diz a americana Eirin Powell, estudante de sociologia americana que veio a Londres esta semana especialmente para tentar ver o casal de perto (ontem, por exemplo, ela observava os melhores pontos de vista ao redor da Abadia de Westminster).

Tal combinação entre cool e apego à tradição explica por que as autoridades de segurança se preparam para ver pelo menos um milhão de pessoas se espremendo ao longo do percurso que os noivos farão entre a abadia e o palácio, à espera também de espiar a rainha e outros famosos (outras personalidades britânicas de apelo global, como o jogador David Beckham e o cantor Elton John, estão na lista de convidados).

Mesmo os que não testemunharem in loco (e a expectativa é de que o casamento poderá ser assistido por dois bilhões de pessoas) deverão presenciar outra característica de Kate que anda entusiasmando os comentaristas de assuntos reais. Se noivas anteriores pareciam coelhos paralisados por luzes mais fortes, a futura princesa é vista como nascida para o papel.

¿ Diana e Sarah Ferguson (que se casou com o irmão do meio de Charles, o príncipe Andrew) tiveram que se adaptar à mudança em suas vidas com a entrada na família real. Kate já está lá ¿ opina o historiador Hugo Vickers.

Já William concluirá amanhã sua transição de xodó para futuro rei dos britânicos. Ainda com as feições joviais que tanto lembram a mãe, o segundo na linha de sucessão do trono aproveitou a moratória dada pela mídia britânica após a morte de Diana, num acidente de carro em Paris, enquanto fugia de paparazzi, para tentar crescer de maneira mais normal possível (tinha apenas 15 anos), antes de mergulhar no ofício com o qual já nasceu comprometido.

Os britânicos só não verão piadas sobre o casamento. Em contrato com as emissoras, a família real proibiu qualquer ¿comédia, sátira ou programa de entretenimento similar¿ com o assunto.

A noiva e o noivo não têm água gelada nas veias. Ela, para não ser traída pelos nervos amanhã, participou há duas semanas de um ensaio da cerimônia religiosa, ao lado de parentes e de Harry, padrinho de casamento de William. Ontem, voltou ao local, dessa vez acompanhada de William, e sob a escolta de comboio policial.

Nas primeiras horas do dia tinha sido a vez de mil integrantes das Forças Armadas, que marcharam pelo percurso, com uniformes completos e simulando o desfile que acompanhará os noivos. A única diferença para o que farão amanhã foi a ausência de sons nas bandas musicais, já que a lei do silêncio fica em vigor até 6h30m.

Difícil imaginar que será respeitada amanhã, a julgar pelo fato de que fãs já vem acampando em pontos-chave do percurso desde terça-feira.