Título: Estamos num patamar superior
Autor: Almeida, Cássia ; Martin, Isabela
Fonte: O Globo, 30/04/2011, O País, p. 10

Professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ), o sociólogo Adalberto Cardoso afirma que, apesar de a renda per capita da maioria dos brasileiros ficar entre um e dois salários mínimos, é preciso levar em conta o aumento real do piso na última década. Segundo o sociólogo, ¿a questão não é que estamos com padrão baixo de bem estar, mas que estamos num patamar muito superior a 2000¿.

A maioria dos brasileiros tem renda de até dois salários, mora em centros urbanos e tem imóvel próprio. Mas quase metade dos lares não conta com rede coletora de esgoto.

ADALBERTO CARDOSO: Isso (saneamento) depende da região do país. As capitais e regiões metropolitanas têm saneamento próximo a 100%, e congregam quase metade da população. A renda per capita é baixa em números de salários mínimos, mas é bem mais alta em termos reais em relação a 2000. O salário mínimo cresceu muito mais do que a inflação. A questão não é que estamos com padrão baixo de bem estar, mas que estamos num patamar muito superior a 2000, o que indica um processo de melhoria de vida para a média dos brasileiros.

Segundo o Censo, a participação relativa das capitais no total da população manteve-se praticamente constante. Como o senhor vê esse dado?

ADALBERTO: É um dado importante. Indica que o saldo líquido das migrações e do crescimento populacional já não incha as capitais e cidades grandes. Os brasileiros estão ficando em seus locais de origem, ou migrando para outras regiões que não as capitais, ou deixando as capitais de volta a seus locais de migração original, com isso compensando os que ainda vêm para os grandes centros. O resultado é a estabilização da participação das capitais no total. Trata-se do reflexo do desenvolvimento mais descentralizado do país, fruto das políticas públicas dos últimos anos e dos estímulos ao desenvolvimento do interior do país e dos estados do Nordeste e do Norte.

Os dados revelam que houve um aumento de 25% no número de domicílios particulares. Quais variáveis podem explicar essa mudança?

ADALBERTO:Parte disso decorre do crescimento demográfico puro e simples. Desdobramentos de propriedades dos pais e heranças explicam outra parte. E uma parte decorre de aumento do poder aquisitivo dos brasileiros, dos programas de crédito habitacional, do aumento da renda dos mais pobres, que em geral redunda em construção da casa própria por meios próprios e etc.