Título: Uma massa de baixa renda e uma elite rica
Autor: Almeida, Cássia ; Martin, Isabela
Fonte: O Globo, 30/04/2011, O País, p. 10
RIO, FORTALEZA e RECIFE. Mesmo com a melhora na renda nos últimos anos, há uma grande massa de famílias brasileiras que ainda vive com até um salário mínimo per capita. São 60,5% nessas condições, o que representa 34,7 milhões de famílias. Em 2000, data do último censo, eram 66,6% vivendo com até um mínimo. A melhora mais evidente aconteceu na faixa da extrema pobreza, onde a renda per capita é de até um quarto do salário mínimo: baixou de 16,7% para 9,2%. Já para os que ganham mais de cinco salários, a parcela se manteve: em 2000 era 5,2% e em 2010, passou para 5,1%:
- Apesar da melhora no mercado de trabalho e da queda da desigualdade, não houve uma mudança na estrutura. Continuamos com uma grande massa da população de baixa renda, separando-se de uma pequena elite muito rica. - afirmou o economista e sociólogo da UnB Marcelo Medeiros, especialista em pobreza e desigualdade.
Medeiros observa que permanecem dois padrões clássicos da sociedade brasileira: grande massa de baixa renda e uma "mobilidade muito curta na pirâmide de renda".
- As pessoas conseguem ascender, mas não dão grandes saltos. Não é um país que dá oportunidade para isso.
O economista da Unicamp Claudio Dedecca também concorda com as melhoras e de que não houve mudança significativa na estrutura de renda no Brasil.
- O mais sério é que o salário mínimo, que deveria ser o piso, acabou concentrando a população em torno do seu valor. A renda domiciliar per capita repete a remuneração no mercado de trabalho, nas mesmas proporções. Não houve mudanças na estrutura ocupacional - diz Dedecca.
Mercado de trabalho e benefícios ajudaram
O presidente do IBGE, Eduardo Nunes, citou o crescimento econômico, a melhoria do mercado de trabalho, que criou 10 milhões de empregos no período, e os programas assistenciais, como o Bolsa Família, como fatores que provocaram a melhoria na base da pirâmide de renda.
Um desses benefícios, a aposentadoria por invalidez é a única renda recebida pela dona de casa Maria Amélia Lima, de 64 anos, moradora de Fortaleza. E o dinheiro é gasto praticamente todo no mesmo dia no recebimento. O benefício foi conseguido depois que Maria Amélia ficou cega há quase duas décadas.
- O dinheiro nem esquenta na mão. É todo gasto onde compramos fiado a comida e o gás de cozinha. O restante é para pagar a água e luz. Mesmo inscrita na categoria de baixa renda, as duas contas levam R$30 do salário. Só fico mesmo é com o dinheiro do pão.
O sonho dela é que o marido, Almir, de 63 anos, consiga aposentar-se também para ajudar no orçamento doméstico. Com o casal vive o caçula dos 12 filhos que tiveram, Márcio, de 20 anos, que é estudante. Na juventude, Maria Amélia trabalhou em casas de farinha raspando mandioca e debulhando feijão.
No Nordeste, 80,3% ganham até um salário mínimo
Enquanto na média brasileira, 60,5% das famílias têm renda domiciliar per capita de um mínimo, no Nordeste, esse percentual sobe para 80,3%, na maior proporção entre as grandes regiões brasileiras. A melhor situação está no Sul do Brasil, com 47,7% com ganhos de até um mínimo. A dona de casa Josefa Cristina da Silva, moradora no Recife, em uma casa de três cômodos no bairro de Afogados, junto com o filho Paulo Henrique da Silva, só tem o salário mínimo do filho como renda da família. Com ela, moram, ainda, dois netos, filhos de Paulo, que tem trabalho formal há 11 anos. Assim, a renda domiciliar per capita é de um quarto do mínimo.
O dinheiro que recebe, no entanto, não dá nem para despesas básicas: a família está com as contas de água e luz atrasadas há mais de ano.
- É meu filho recebendo o salário e a gente pagando a mercearia. Mas de luz e água, já perdi até a conta de quantas estão atrasadas.
A eletricidade da residência já foi cortada, mas a família fez um "gato" (ligação clandestina) para não ficar sem luz. E a empresa distribuidora de água também já esteve no local para cortar a água.
- Mas a gente faz uma barreira e não deixa os homens entrarem em casa - contou Josefa, que é viúva há 20 anos.
Hoje Maria faz alguns biscates para ajudar no orçamento.
- Lavo, cozinho, faço limpeza, o que aparecer. Estou com 54 anos e nunca tive carteira assinada.
Ela é analfabeta. Nasceu no interior, em Paudalho, na zona da mata, e afirma que naquela época os pais não davam importância ao estudo.
É precisa investir em educação, diz especialista
Para Medeiros, o país precisa investir maciçamente em educação para mudar essa estrutura de renda no país.
- A prioridade absoluta era a extrema pobreza, que vem diminuindo. Agora precisamos investir pesadamente em educação, muito mais que investimos agora. O ensino médio é mais caro que o fundamental, assim como a pré-escola é mais cara que manter as mães cuidando dos filhos em casa. Até a política industrial precisa mudar para abrir empregos de nível médio.