Título: Correios se juntarão a BB, fundos de pensão e BNDES para ter trem-bala
Autor: Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 30/04/2011, Economia, p. 38

BRASÍLIA. Os Correios vão se associar ao Banco do Brasil, aos fundos de pensão das estatais (reunidos na Invepar, hoje sócia da Vale) e ao BNDES na criação de um fundo de investimento com o objetivo de comprar sociedade no trem-bala que ligará o Rio a São Paulo. Da parte da estatal, o interesse é ter como contrapartida uma oferta firme de transporte, seja pela reserva de vagões para carga, seja pelo direito de utilização das linhas férreas com composição própria. Até o próximo dia 12, será assinada uma carta de intenções das quatro partes.

O documento vai estabelecer requisitos financeiros, operacionais, de governança e de garantias e terá cláusulas de confidencialidade. Os Correios poderão investir mais do que os R$4,5 bilhões que têm reservados em caixa para o trem de alta velocidade, segundo uma fonte.

Na segunda quinzena de maio, a estatal irá a campo procurar os consórcios que demonstraram interesse no projeto (grupos espanhóis e coreanos, por exemplo) para afirmar a disposição de participar como sócia, financiando parte do negócio, e como cliente cativo, o que aumentaria a segurança dos investidores.

¿ Quem for ao leilão já saberá que os Correios participarão e, na hora de dar o lance, vai considerar que terá um cliente importante, que pode ser cativo e até sócio. Isso pode ajudar a viabilizar o negócio ¿ disse o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.

Transporte aéreo de carga, outra prioridade

Em outra frente, os Correios estão decididos a criar uma empresa de transporte aéreo de carga, via parceria público-privada (PPP), para atrair profissionais com experiência no setor. Na engenharia financeira, a estatal será sócia majoritária. O desenho da subsidiária será discutido na segunda-feira, numa reunião com Paulo Bernardo.

O ministro destacou que a solução do problema do transporte aéreo de carga é vital para a empresa. Como o país não tem companhias cargueiras de peso (quase todas se originaram do transporte rodoviário, com aviões velhos), o processo de licitação acaba sendo frustrado e o serviço, interrompido, o que obriga a contratação de espaço em aviões de passageiros, a um alto custo.

A possibilidade de criar subsidiárias e comprar participação em empresas foi aberta com a Medida Provisória (MP) 532, publicada ontem e que dá suporte legal à mudança do estatuto dos Correios. Falta agora um decreto presidencial para sacramentar as alterações, que serão acompanhadas de práticas de melhoria de gestão e de ampliação do leque de atuação da estatal.

Com a MP, os Correios poderão criar bancos e oferecer novos serviços nas áreas de telefonia (habilitação de aparelhos) e internet. A previsão é que o decreto com as mudanças no estatuto da empresa seja publicado na segunda-feira.

Empresa age em várias frentes para ser competitiva

Segundo técnicos, o projeto do trem-bala, que ligará Rio, São Paulo e Campinas, é estratégico para os Correios, que têm na área de encomendas uma das principais metas de expansão. Hoje, a estatal detém apenas 30% das encomendas do eixo e precisa encontrar novas formas de reduzir custos e ganhar competitividade.

Conforme dados da estatal, 97% do tráfego entre Rio e São Paulo são por rodovias e apenas 3%, por aviões ¿ o que explica o potencial do negócio. Além de ganhos financeiros para os Correios, a transação poderá gerar benefícios para a imagem institucional, agregando rapidez, modernidade, preocupação com o meio ambiente e segurança.

Como base para a entrada no empreendimento, os Correios observaram a experiência da empresa francesa La Poste, que substituiu o transporte aéreo pelo uso de um trem de alta velocidade.

Um grupo de trabalho sugeriu que os Correios tenham composições ferroviárias configuradas para o transporte de carga e vagões preparados para levar contêineres. A construção de terminais, com equipamentos de movimentação de carga nas estações, e a possibilidade de a estatal negociar seus espaços com outras empresas do segmento também estão entre as recomendações.

Paulo Bernardo defendeu que os Correios tenham um banco próprio. O banco postal tem 11 milhões de contas.

O contrato do banco postal com o Bradesco termina em novembro e o edital para a escolha de um novo parceiro já está na praça. A concorrência está marcada para 31 de maio, e Paulo Bernardo adiantou que seis grandes bancos estão interessados. O contrato terá duração de cinco anos e uma das novidades é a possibilidade de os Correios lançarem um cartão de crédito próprio. Outro plano é a criação de um cartão pré-pago especial, que funcionará como uma espécie de poupança.

¿ O potencial é enorme, principalmente para a baixa renda, quase 55% dos correntistas ganham até dois salários mínimos. E os Correios têm um vantagem forte, estão presentes em todos municípios brasileiros ¿ disse Paulo Bernardo.