Título: As contradições do ser humano
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 01/05/2011, O Mundo, p. 48

Ernesto Sabato era um homem triste; de tão triste parecia que esta era sua natureza; mais do que seu corpo, seu olhar, suas palavras, mais que tudo isso, Sabato era fisicamente triste. E, no entanto, sempre que me lembro dele, vejo-o pedindo a Jorge Valdano, seu conterrâneo ex-futebolista, que lhe desse um chute no estômago: ¿Para que veja como estou forte¿. E ele estava forte, havia alguns anos; então, voltou à Espanha com sua companheira, Elvira Rodríguez Fraga, como se viesse despedir-se deste país velho.

Mas, na volta, sua tristeza fez-se tão maior que transformou seu corpo, sua memória e seu desejo em pura melancolia; e sua saúde foi deteriorando-se. Pois, apesar das aparências, explícitas ou escondidas sob olhos risonhos, Ernesto Sabato era também um ranzinza que amava a vida, um homem capaz de alternar sua preocupação pela cegueira (a sua, que ameaçava-o) com piadas e comentários ácidos que gostava de levantar ao falar da classe literária a qual pertencia em cheio, mas relutantemente.

Há alguns dias, Elvira González Fraga me telefonou. Ela cuida, com uma ilusão imutável e um senso de humor que sempre contrastou ao péssimo de seu companheiro, da Fundação Ernesto Sabato, no belo bairro de Palermo. Consciente das doenças outorgadas aos corpos humanos, ela preparava as comemorações pelo centenário de Sabato, em 24 de junho.

Não mais. A morte de Sabato é um trago amargo e simbólico para a Argentina e para a literatura. Ele representa a Argentina, com todas as contradições que nele atuaram em baixa frequencia e que também golpearam Jorge Luis Borges, algumas vezes seu amigo e quase sempre seu oponente; sobre eles, de maneiras distintas, recaíram as chicotadas que esse país aplicou para privar os homens da serenidade da discussão ou do desacordo.

Essas contradições refletiram-se nesses dois titãs agora desaparecidos. As feridas estão nos livros, incluídas nas entrevistas que deram juntos e nos insultos que trocavam particularmente ou em público. Há um livro em que ambos falam de literatura, de Deus e do diabo, e, mesmo que nunca tenham se gostado completamente, ali se vê em ambos uma ternura sustentando uma inquietude comum: para que tanta confusão se vamos morrer e não sobrará nenhuma linha, nem um simples verso?

Mas agora vale mais recordar a literatura de Sabato do que essas escaramuças que um aceitou como riscos do destino e outro, o que acaba de falecer, converteu em trampolim de uma decisão civil que marcou-o como herói de uma Argentina nova que nunca acabou de ser uma Argentina renovada. E a literatura de Sabato traz as contradições do ser humano.

Sabato queria desaparecer, isso está em seus livros, mas também queria ficar, isso está em seu olhar ferido que agora acaba de se apagar. Ernesto Sabato, un titã diminuído sempre pela constância raivosa de sua melancolia.

JUAN CRUZ é colunista do El País