Título: Ernesto Sabato, um nome além da literatura
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 01/05/2011, O Mundo, p. 48

Escritor argentino, que completaria 100 anos em junho, teve papel fundamental na redemocratização de seu país

ERNESTO SABATO, que morreu ontem por complicações derivadas de uma bronquite: criticado por encontro com militares e um ídolo pós-ditadura

O ESCRITOR, que liderou a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), entrega ao então presidente Raúl Alfonsín, em 1984, o documento ¿Nunca Mais¿, com informações sobre mais de oito mil presos políticos durante o governo militar

BUENOS AIRES. Apesar de ter sido alvo de críticas de setores intelectuais e políticos que nunca o perdoaram por ter se reunido com as mais altas autoridades da última ditadura militar argentina (1976-1983), na década de 70, ontem, no dia de sua morte, o escritor Ernesto Sabato foi lembrado e homenageado como ¿ícone da redemocratização do país¿. Seus amigos, colaboradores e importantes dirigentes políticos que participaram junto a Sabato da histórica Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), criada pelo governo de Raúl Alfonsín (1983-1989), destacaram o trabalho realizado pelo escritor ¿ que no próximo dia 24 de junho faria 100 anos ¿ no processo de elaboração do documento ¿Nunca Mais¿, com informações sobre mais de oito mil presos políticos desaparecidos durante o governo militar.

A morte do romancista e ensaísta, decorrente de complicações causadas por uma severa bronquite, provocou um clima de profunda tristeza no país. Depois de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar, a Argentina lamentou a perda do último nome de consagração universal da literatura do país do século XX. Por decisão pessoal, o velório foi realizado no clube do distrito de Santos Lugares, na região da Grande Buenos Aires, onde Sabato morava desde 1945.

¿ Ele nos disse que, quando morresse, queria que o velório fosse aqui, com as pessoas de seu bairro ¿ contou o cineasta Mario Sabato, filho do escritor, que acabou cancelando uma homenagem que faria ao pai e que aconteceria hoje, durante a Feira do Livro de Buenos Aires.

Nos últimos anos, saúde frágil e reclusão

Segundo ele, seu pai chegou a dizer que queria ser lembrado ¿como um vizinho que às vezes é meio ranzinza, mas às vezes também é um bom vizinho¿. Durante todo o dia, canais de TV locais entrevistaram moradores de Santos Lugares que costumavam encontrar-se com Sabato na época em que ele ainda estava bem de saúde e passeava pelas ruas do bairro, muitas vezes com seu cachorro. Os últimos anos, no entanto, não foram fáceis para o autor, segundo Elvira Fraga, que se tornou a grande companheira desde a morte de Matilde, mulher e mãe dos dois filhos de Sabato (Jorge morreu em 1995, num acidente de automóvel). ¿Ele estava sofrendo, tinha muitas dificuldades para respirar¿, declarou ela à imprensa local.

Emocionada, Elvira disse que, apesar das complicações em seu estado de saúde, Sabato, que era formado em física nuclear e ainda se dedicava à pintura, ¿ainda tinha bons momentos, especialmente ouvindo música¿.

Em 1994, o vencedor do Prêmio Cervantes, entre tantos outros, e autor de obras consagradas como os romances ¿Sobre heróis e tumbas¿ (1961) e ¿O túnel¿ (sua estreia na ficção, em 1948), reconheceu ter estado à beira do suicídio duas vezes em sua vida. A arte, disse Sabato, ¿me salvou e por isso minha arte é tão trágica¿. O pessimismo e o desencanto do escritor perpassa muitos de seus livros. Em ¿Antes do fim¿ (1999), ele relembra fatos fundamentais de sua existência num tom algo amargo. Em ¿A resistência¿ (2000), faz um balanço sombrio da situação em que se encontra a sociedade hoje, sufocada por falta de solidariedade e excesso de intolerância e espírito mercantilista. Apesar disso, em ambos os livros o escritor acena com pitadas de esperança e exorta os leitores a serem agentes de uma mudança profunda e positiva.

Amiga da família havia décadas, a escritora e roteirista Aída Bortnik disse que ¿Sabato tinha sempre um ar de amargura que o acompanhava. Ele sofria muito, basicamente, pela realidade argentina¿. Segundo ela, um dos momentos mais importantes e felizes da vida do escritor de passado comunista, e que gostava de definir-se simplesmente como um anarquista, foi a apresentação do relatório ¿Nunca Mais¿.

¿ Ele mudou sua expressão, não porque estivesse feliz pelo trabalho, era uma dor constante, mas tinha a sensação de estar fazendo algo que era muito importante e devia ser feito ¿ afirmou a escritora, autora do roteiro de ¿A História oficial¿ (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1986).

Ontem, Aída Bortnik e outros intelectuais argentinos fizeram questão de destacar o papel de Sabato na luta pela defesa dos direitos humanos antes e depois do retorno da democracia.

¿ No encontro que teve com (Jorge Rafael) Videla, Sabato e Borges denunciaram o desaparecimento de pessoas ¿ lembrou Aída.

A jornalista Magdalena Ruiz Guiñazú também frisou que o escritor ¿sempre participou de abaixo-assinados que exigiam a libertação de presos políticos. Isso não pode ser esquecido¿.

¿ Foi um homem profundamente vinculado a valores e princípios, uma personalidade emblemática ¿ declarou o jurista e ex-ministro da Justiça Ricardo Gil Lavedra, que também participou da Conadep.

No prólogo do documento ¿Nunca Mais¿, Sabato afirmou que ¿nos anos 70 a Argentina foi conturbada por um terror que vinha tanto da extrema direita, como da extrema esquerda¿. A frase levou a presidente das Mães da Praça de Maio, Hebe Bonafini, a acusar o escritor de defender a famosa teoria dos dois demônios, usada por setores da sociedade argentina para justificar o golpe de 1976.

O escritor e crítico José Castello, colunista do Prosa & Verso, lamenta que ¿entre os grandes escritores argentinos, Sabato fique sempre um pouco esquecido¿. A ficção dele, escreve Castello, ¿incomoda e, mais ainda, transtorna. Ela não celebra valores ou ideais, mas a miséria do existir. Não é uma ficção que consola: ao contrário, agita o espírito e nos obriga a pensar¿.

Jovens descobriram no autor um ídolo

Já na década de 90, o passado polêmico de Sabato, que chegou a se referir a Videla como ¿um homem culto, modesto e inteligente¿, tinha sido esquecido por muitos argentinos e, sobretudo, pelos mais jovens. A escritora Sylvina Walger lembra-se de caminhar pelas ruas de Buenos Aires ao lado do escritor e maravilhar-se ¿pelo fanatismo da juventude, que o considerava um ídolo¿. Ontem, muitos jovens argentinos fizeram questão de participar do velório de Sabato, um homem que praticamente desapareceu da vida social desde que foi declarado cidadão ilustre da província de Buenos Aires, em 2009.