Título: Tem gringo na empresa
Autor: Ribeiro, Fabiana; Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 01/05/2011, Economia, p. 39

Nem real forte assusta investidor, que busca oportunidades em áreas como construção e saúde

PARIS. O Brasil está caro. Mas nem o fato de os preços em São Paulo e Rio superarem, em alguns casos, os de Paris, está impedindo que empresários franceses desembarquem em peso no Brasil, atraídos pelo crescimento do país. Que o diga o francês Eric Fajole, diretor no Brasil da Ubifrance, agência do governo que ajuda empresas francesas a exportarem ou se implantarem no mercado externo. Em um ano, Fajole constatou um movimento jamais visto no seu escritório em São Paulo:

¿ Recebemos dois executivos de empresa por dia. Mesmo sabendo que o real está forte e que os preços aqui são tão caros, ou às vezes até mais caros, do que em Paris, o crescimento do país é tal e o mercado interno é tão interessante hoje que as empresas estão chegando assim mesmo ¿ disse.

A França tem longa tradição de investimentos no Brasil. Cerca de 500 empresas operam no país, entre elas, grandes grupos, como L¿Oreal e Carrefour. A novidade agora, segundo Fajole, é que o mercado brasileiro deixou de ser exclusividade deles. Há fundos de investimentos interessados no Brasil, pela primeira vez. Pequenas e médias empresas francesas também estão desembarcando, em busca de aquisições, joint-ventures, participação nas empresas brasileiras ou investimentos direitos.

¿ Com os custos altos no Brasil, está mais difícil (para empresas francesas) visar o mercado latino- americano a partir do Brasil. Mas a demanda interna brasileira cresceu tanto que hoje se justifica um investimento só para o mercado do Brasil ¿ explica Fajole.

Outra novidade: pela primeira vez, os franceses estão interessados em todos os setores, até em construção, uma área nunca explorada antes. Os setores que mais atraem são os de tecnologia de informação, saúde, agronegócio. Mas tem empresa investindo até em área têxtil. Semana passada, até o salão de vinho de São Paulo, a ExpoVinis, contou com a presença de 64 expositores francesas.

No sentido inverso, o governo francês quer atrair mais empresas brasileiras para a França. Menos de 20 empresas brasileiras estão na França, entre elas, Natura, Embraer e Banco do Brasil. O ministro do comércio francês, Pierre Lellouche, acha pouco e esteve no Brasil semana passada com o objetivo de convencer que a França é um bom negócio. Uma campanha chamada ¿So French, so good¿ (¿tão francês, tão bom¿, traduzido do inglês), foi lançada visando alguns mercados e o Brasil é um deles.

Mas o real forte também prejudica quem quer vender na França. Um exemplo é o da estilista Marcia de Carvalho, radicada há 20 anos em Paris, que utiliza a renda nordestina como matéria-prima de suas criações. O preço da renda, segundo ela, aumentou em 30%. A solução foi reduzir margem de lucro.

¿ O preço está aumentando demais, e a concorrência aqui (na França) é muito grande.

Gabriel Spaniol, filho do fundador da marca brasileira de sapatos Carmen Steffens, é um recém-chegado ao mercado francês e abriu sua terceira loja na França em novembro passado.

Spaniol, cuja empresa está hoje em 14 países, garante que seja qual for a alta do real, não vai mudar a aposta da empresa de investir no mercado internacional. A Carmen Steffens está pronta para investir até 10 milhões só na França.