Título: Paquistão ameaça rever cooperaçãocom EUA
Autor:
Fonte: O Globo, 06/05/2011, O Mundo, p. 37

Relação estratégica entre Washington e Islamabad ficou ainda mais estremecida depois da Operação Geronimo

ISLAMABAD. A descoberta de que o terrorista Osama bin Laden morava há anos em uma cidade próxima da capital do Paquistão intensificou ainda mais a desconfiança na já frágil, porém estratégica, relação entre Washington e Islamabad. O episódio arranhou a imagem do Exército paquistanês, o quinto maior do mundo e a instituição que goza de maior prestígio no país. Ontem, o chefe das Forças Armadas paquistanesas, general Ashfaq Parvez Kayani, comentou o episódio pela primeira vez e ameaçou rever a cooperação militar e de inteligência entre os dois países caso os EUA empreendam nova ação unilateral em território paquistanês.

¿Qualquer ação similar de violação à soberania do Paquistão justificará uma revisão do nível de cooperação militar e de inteligência com os EUA¿, disse o general em nota. Kayani informou ainda que o número de militares americanos no Paquistão deve ser reduzido para o ¿mínimo essencial¿, mas não detalhou números. Ainda assim, o comunicado menciona que houve uma ¿deficiência¿ no trabalho de inteligência para detectar a presença de Bin Laden.

Kayani foi a primeira autoridade do governo paquistanês a ouvir informações oficiais dos EUA sobre a operação. Ele recebeu um telefonema por volta das 3h da manhã de segunda-feira, no horário paquistanês, do almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA. Depois disso, o presidente dos EUA, Barack Obama, ligou para o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, sinalizou ontem que Washington pretende preservar sua relação com Islamabad.

¿ Nem sempre é uma relação fácil, vocês sabem disso. Porém, é produtiva para os dois países e a cooperação entre nossos governos, nossos exércitos e nossas forças de segurança vai continuar ¿ disse.

Ajuda ao país desde 2001 já chega a US$18 bi

Apesar da desconfiança, a parceria com o governo paquistanês é estratégica para os EUA. Além de contar com um grande arsenal nuclear, o país é considerado também o principal centro mundial de terrorismo transnacional.

O ministro de Relações Exteriores paquistanês, Salman Bashir, tentou minimizar as críticas de falta de resposta à operação, informando que dois jatos de combate F-16 foram acionados depois que o helicóptero americano caiu. Somente neste momento, foi detectado que havia algo extraordinário em curso. Quando chegaram ao local, os helicópteros americanos já estavam no trajeto rumo ao Afeganistão. O ministro explicou que os helicópteros americanos voaram em altitude mais baixa para escapar do radar.

Sem acusações diretas, mas com uma atitude cautelosa, Bashir evitou classificar a operação como legal ou ilegal.

¿ É importante que a comunidade internacional seja cuidadosa quanto ao fato de que a cooperação é uma via de duas mãos ¿ disse.

Ainda assim, afirmou que os dois países têm interesses em comum. A desconfiança quanto ao real grau de engajamento do governo paquistanês no combate ao terrorismo já levanta discussões sobre eventuais cortes na ajuda humanitária concedida ao país. Desde o ataque de 11 de setembro de 2001, os EUA já repassaram US$18 bilhões ao Paquistão.

A maior parte dos recursos foi para os militares, mas em 2009 o Congresso autorizou a cessão de US$7,5 bilhões ao longo de cinco anos para ajudar a apoiar o governo paquistanês na construção de escolas e estradas.

O senador democrata John Kerry, um dos autores da lei, afirmou que os EUA necessitam do apoio do Paquistão para perseguir extremistas no futuro e também para abastecer os 100 mil soldados americanos alocados no Afeganistão.