Título: Um corpo no abismo do mar
Autor: Motta, Cláudio
Fonte: O Globo, 06/05/2011, Rio, p. 16
Franceses recuperam entre os destroços do voo 447 restos mortais de uma vítima
Oprimeiro corpo de uma das 228 vítimas do voo 447 da Air France (Rio-Paris), que caiu há quase dois anos próximo à costa brasileira, foi resgatado ontem, de uma profundidade de 3.900 metros, por especialistas e pela polícia francesa. Na época do acidente, 51 corpos foram resgatados flutuando na superfície. Segundo a polícia francesa, o corpo ainda estava preso a um assento do avião, pelo cinto de segurança.
O comunicado da polícia lança dúvidas sobre quantos corpos poderão ser resgatados, devido às "condições particularmente complexas" da operação: "As tentativas de retirada dos corpos são efetuadas em condições particularmente complexas e até então inéditas. Há grandes incertezas quanto à capacidade técnica de recuperação dos corpos".
Para Nelson Faria Marinho, presidente da Associação de Familiares de Vítimas, no entanto, todos os esforços devem ser feitos para recuperar a totalidade dos corpos.
- O comunicado oficial foi de que retiraram um corpo, e que teria havido um problema na descompressão, uma vez que ele estava numa profundidade muito alta e retornou ao nível do mar. Mas os primeiros corpos também estavam mutilados. Ou seja, todos os corpos têm que ser resgatados, não importam as condições. Quero meu filho de volta - disse Nelson.
Os responsáveis pelo resgate afirmam que o corpo resgatado estava "degradado". A preservação foi possível pelo fato de os destroços estarem em águas profundas e frias, sob grande pressão e com menos organismos marinhos. Bactérias que decompõem tecidos se tornam inativas em águas muito profundas.
Objetos ajudariam na identificação
Para o perito criminal Mauro Ricart, a identificação das vítimas será feita por roupas, documentos ou, ainda, exame de DNA:
- O corpo pode estar conservado, mas não está íntegro. Intacto, só se estivesse numa câmara de gás criogênico. As partes macias e o rosto são mais afetados. As impressões digitais somem. A água, ainda mais a salgada, corrói. O reconhecimento pode ser feito pela roupa ou por relógio, anel, prótese, documentos no bolso da roupa. E é mais do que possível fazer exame de DNA.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou ontem que os corpos resgatados vão para a França, respeitando a legislação internacional. De acordo com ele, a responsabilidade das buscas é do país da aeronave que sofreu o acidente. Jobim disse ainda que um oficial da Marinha brasileira vai acompanhar o processo de investigação. E que o Brasil observará a análise das caixas-pretas. Esta é uma prerrogativa de países que tinham cidadãos no acidente, segundo Jobim.
A Força Aérea Brasileira (FAB) informou em nota que a queda do avião ocorreu em águas internacionais, estando as investigações a cargo do Bureau d"Enquêtes et d"Analyses pour la Sécurité de l"Aviation Civile (BEA). A FAB informou ainda que esse procedimento é previsto pelo parágrafo 5.3 do Anexo 13 da Convenção sobre Aviação Civil Internacional, da qual o Brasil é signatário.
Os corpos vão para a França e o processo será acompanhado por autoridades brasileiras. Em caso de necessidade, será feito o traslado de volta para o Brasil. A Associação de Vítimas, no entanto, critica essa operação.
- Os corpos deveriam ficar no Brasil. Essa viagem vai traumatizar ainda mais os corpos. Se meu filho for para a França, será sepultado lá mesmo. É meu desejo: minha família ficou dividida entre Brasil e França, a empresa é francesa e o monumento (às vítimas) foi feito lá - disse Nelson.
A Associação reclama, ainda, da demora da Justiça brasileira em emitir o atestado de morte presumida:
- A Air France, em quatro meses, recebeu sua indenização. As famílias até hoje estão brigando em tribunais para receber o pagamento. A maioria de nós sequer tem o documento de morte presumida. Dentro da associação, apenas um conseguiu. Sem a documentação, não se consegue nada: mexer na conta bancária, regularizar o INSS etc.
Uma comissão de mulheres formada dentro da associação quer levar as reclamações diretamente à presidente Dilma Rousseff.
COLABOROU Deborah Berlinck, de Paris