Título: O caminho do combate à miséria
Autor:
Fonte: O Globo, 05/05/2011, Opinião, p. 6

O governo Dilma aponta a extinção da extrema pobreza como sua prioridade, numa decisão meritória, pois de fato trata-se de uma aspiração de toda a sociedade brasileira, considerando-se que o grau de desenvolvimento alcançado pela economia do país permite almejar este objetivo, de forma objetiva e realista.

Com base nos dados do Censo de 2010, o IBGE mapeou o quadro de extrema pobreza no Brasil. Seriam 16,3 milhões de brasileiros (8,5% da população), com renda média de no máximo R$70 mensais. Desses brasileiros, 4,8 milhões não têm qualquer renda. Proporcionalmente, a extrema pobreza é maior no campo que nas cidades, levando-se em conta a distribuição da população entre áreas rurais (16%) e urbanas (84%). Mas, numericamente, a maioria dos extremamente pobres (8,67 milhões) vive em zonas urbanas.

O Nordeste concentra, em termos absolutos e relativos, a maior parte (9,6 milhões) dos brasileiros extremamente pobres, seguido pelo Sudeste (2,72 milhões), Norte (2,65 milhões), Sul (715,9 mil) e Centro-Oeste (557,4 mil).

O Centro de Estudos Sociais da Fundação Getulio Vargas acaba de divulgar um trabalho avaliando os fatores que contribuíram para a redução da desigualdade e da pobreza no Brasil nos últimos anos.

Segundo esse estudo, o avanço da escolaridade foi tão ou mais importante que os programas de transferência de renda para a melhora desses indicadores. E a conclusão da FGV é que o mais difícil está por vir, pois a extrema pobreza é a que tem mais dificuldade de ascensão.

É possível cruzar os dados do Censo de 2010 com o cadastro do Bolsa Família e identificar em cada região, cada estado, cada cidade ou zona rural o quadro mais crítico da extrema pobreza para a adoção de iniciativas focadas nos necessitados.

Além dos programas de transferência de renda (que o pesquisador Ricardo Paes de Barros, especialista no tema, define como "ensinar a comer o peixe antes de ensinar a pescar"), a erradicação da extrema pobreza depende de um esforço de escolarização, qualificação profissional para aproveitamento de oportunidades no mercado de trabalho, e também de uma considerável melhora nas condições de habitação, saúde e saneamento básico desses brasileiros.

Os extremamente pobres vivem em locais precários, quase sempre sem banheiro, o que os expõe a doenças e agrava seus problemas de saúde.

Forma-se então o círculo vicioso da pobreza que o pesquisador Marcelo Néri, da FGV, aponta como o mais difícil de ser quebrado. O Bolsa Família não é suficiente para quebrar esse círculo. O programa serve para ensinar a comer o peixe, mas não ensina a pescar. Na extrema pobreza estão ainda milhões de brasileiros sem qualquer renda, o que leva a supor que não são atingidos pelos programas sociais.

A experiência dos últimos anos e os dados recentemente colhidos permitem que se trace uma estratégia para que o Brasil ponha um ponto final na mazela da miséria. E a quantidade e a qualidade de informações que o Estado detém deste universo reduzem o risco de o programa ajudar quem não precisa.