Título: O vovô italiano que virou herói nacional
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 08/05/2011, O Mundo, p. 40

Com caçada a Bin Laden, Leon Panetta redime a CIA

OBAMA E Panetta, em Washington: o diretor da CIA é amigo de Clint Eastwood e foi criticado pelos republicanos

WASHINGTON. ¿Eles chegaram ao alvo¿. ¿Temos um visual de Geronimo¿. ¿Geronimo EKIA¿. As três frases, pronunciadas em intervalos de minutos no último domingo, entraram para a História na voz grave de Leon Panetta, o diretor da CIA. Geronimo, no caso, era o codinome usado para designar o líder terrorista Osama bin Laden. EKIA é a sigla em inglês para ¿inimigo morto em ação¿ (enemy killed in action). Uma dúzia de palavras narrou o fim do inimigo n° 1 dos Estados Unidos desde os atentados de 11 de setembro de 2001, e catapultou o chefe da agência central de inteligência americana à categoria de herói nacional. No histórico momento, Panetta ¿ instalado em Langley, na sede da CIA ¿ aparecia numa tela da Situation Room, na Casa Branca, onde o presidente Barack Obama e sua equipe de segurança nacional acompanhavam atentamente o desenrolar da operação secreta que encerrou uma perseguição de quase uma década.

Na terça-feira, ao adentrar a Câmara dos Representantes para uma audiência fechada com os deputados sobre a Operação Geronimo, Leon Panetta foi aplaudido de pé pelos parlamentares, numa standing ovation ¿ como dizem os americanos ¿ digna de celebridades. Ao longo da última semana, Panetta esteve sob os holofotes mundiais. Acabou sendo desmentido pelo próprio Barack Obama depois de ter afirmado precipitadamente na terça-feira, que não tinha dúvidas de ¿que cedo ou tarde o governo dos Estados Unidos decidirá publicar uma foto do corpo do terrorista Osama bin Laden¿. Também reacendeu uma enorme polêmica no país ao admitir que sua equipe usou técnicas de afogamento simulado ¿ o waterboarding ¿ em prisioneiros para obter informações que os levassem a Bin Laden. Membros do governo republicano de George W. Bush tentaram se aproveitar da revelação para capitalizar a morte do líder da al-Qaeda, enquanto organizações de direitos humanos e juristas condenaram o fato. Mas isso não apagou os méritos do diretor da CIA aos olhos da opinião pública e do governo americano.

A bem-sucedida caça a Bin Laden alterou repentinamente o status desse filho de imigrantes italianos, casado, pai de três filhos e avô de cinco netos. Mas até chegar esse dia, o percurso foi espinhoso.

Ao assumir o comando da CIA, em 13 de fevereiro de 2009, Panetta recebeu a difícil missão de recuperar o prestígio de uma agência desacreditada e envolvida em escândalos e denúncias de abusos. Entre as críticas apontadas, figuravam a ineficiência na previsão dos atentados às Torres Gêmeas, em Nova York; os equivocados relatórios sobre a posse de armas de destruição de massa pelo regime iraquiano de Saddam Hussein; ou a prática de tortura de suspeitos de terrorismo em células secretas no exterior. Como bônus, em janeiro de 2009, o chefe do escritório da CIA na Argélia foi acusado de estupro de pelo menos duas mulheres muçulmanas.

Mas a nomeação de Panetta foi contestada por parlamentares durante sua sabatina no Senado americano.

¿ Muitos de nós acreditamos que o diretor da CIA deve ter uma experiência profissional na área de inteligência, o que o senhor claramente não tem ¿ disparou o senador republicano Kit Blond, sem obviamente poder imaginar que, dois anos depois, o sabatinado seria aclamado no Congresso.

Panetta cresceu em Monterrey, na Califórnia, e na juventude trabalhou no restaurante de seus pais, que servia especialidades da Calábria para militares do Forte Ord, nas redondezas. Formado em Direito pela Universidade de Santa Clara, mudou-se para Washington em 1966 a fim de assessorar um senador republicano. Promovido a chefe do Departamento de Direitos Civis do governo, acabou demitido pelo presidente Richard Nixon e, em 1971, virou a casaca para o lado democrata. Na sequência, emplacou oito mandatos consecutivos no Congresso americano, até ser designado, em 1993, chefe do Departamento de Orçamento da Casa Branca, na Presidência de Bill Clinton, de quem se tornou chefe de Gabinete entre 1994 e 1997.

Reconhecido como um centrista, de forte temperamento e de fala dura, Panetta foi chamado por Obama para arrumar a casa na CIA. Em sua gestão, a agência de espionagem foi acrescida de contornos de organização paramilitar. Panetta venceu o embate pelo uso de drones ¿ aeronaves não tripuladas ¿ em bombardeios no Afeganistão, contra a preferência do vice-presidente Joe Biden pelos ataques de tropas no terreno, e aumentou o número de bases secretas na região.

Em junho, mês em que completará 73 anos, o chefe da inteligência trocará a sede de Langley pelo Pentágono, para ocupar o lugar do secretário de Defesa, Robert Gates, de aposentadoria anunciada. No novo posto, terá de recorrer a toda a sua expertise em cortes de orçamento para satisfazer as exigência de Obama. O gastos da Defesa duplicaram na última década, e hoje já superam o orçamento militar do período da Guerra Fria.

Em uma noite de outubro do ano passado, Panetta recebeu para um jantar tête-à-tête, na sede da agência, o seu amigo ator e cineasta Clint Eastwood. O diretor queria conselhos para seu filme sobre J. Edgar Hoover (1895-1972), chefe do FBI ¿ a polícia federal dos EUA ¿ durante 48 anos. Num próximo encontro da dupla, desta vez no prédio do Pentágono, o menu da conversa certamente estará recheado de detalhes sobre a Operação Geronimo.