Título: Cortes na Thyssen irritam presidente alemão
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Fonte: O Globo, 08/05/2011, Economia, p. 31

Wulff cancela visita à siderúrgica da empresa no Rio ao saber da demissão de 35 mil. Divisão de peças no Brasil será vendida

RIO e FRANKFURT. O presidente alemão, Christian Wulff, cancelou na noite de sexta-feira a visita à Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) ¿ que é da ThyssenKrupp, no Rio, e estava prevista para ontem ¿ depois de a empresa ter anunciado uma reestruturação que eliminará 35 mil empregos. Segundo o site da rede de TV Deutsche Welle, Wulff disse que o cancelamento se devia à ¿súbita e ampla reestruturação na ThyssenKrupp e suas consequências imprevisíveis¿.

Fontes disseram ao site que o presidente alemão ficou aborrecido com o fato de não ter sido informado dos planos da companhia de eliminar 20% de sua força de trabalho global.

A ThyssenKrupp informou ao GLOBO que a CSA não será afetada pelos cortes. Mas, dentro da reestruturação, anunciada na noite de quinta-feira pelo diretor-executivo da empresa, Heinrich Hiesinger, a ThyssenKrupp vai vender algumas unidades, inclusive uma no Brasil, e separar sua divisão de aço inoxidável. As vendas de ativos devem atingir 10 bilhões. O anúncio das medidas fez com que as ações da empresa saltassem 8% na Bolsa de Frankfurt na sexta-feira.

Segundo o comunicado da empresa, a unidade a ser vendida no país seria a ThyssenKrupp Automotive Systems Industrial do Brasil Ltda., em São Bernardo do Campo, que faz peças para automóveis. As medidas ainda têm de ser aprovadas pelo Conselho de Supervisão, o que deve ocorrer no próximo dia 13.

Indústria de aço inoxidável vem enfrentando crise

Hiesinger, que assumiu o comando da ThyssenKrupp há quatro meses, quer reduzir a dependência da empresa da produção de aço, devido aos avanços dos preços de minério de ferro e carbono, concentrando-se mais em negócios de engenharia. A empresa ainda contraiu pesadas dívidas com a construção da siderúrgica no Rio e de outra unidade no Alabama, nos Estados Unidos.

A dívida financeira líquida da ThyssenKrupp aumentou 54% no quarto trimestre de 2010, para 5,81 bilhões, em parte por causa dos custos com a construção dessas unidades, de acordo com a Bloomberg News. A nota da siderúrgica afirma que o objetivo das medidas é ¿obter mais flexibilidade para crescer em atividades estrategicamente mais promissoras¿.

Jeffrey Largey, analista da Nomura Holdings, afirmou em nota que a separação da unidade de aço inoxidável da ThyssenKrupp deve acelerar o processo de consolidação do setor na Europa. Especialistas estimam que as atividades não siderúrgicas da ThyssenKrupp, que respondem por cerca de 70% do valor total do grupo, foram os principais motores de crescimento da companhia no último trimestre.

O setor de aço inoxidável da Europa tem sofrido há tempos com excesso de capacidade e volatilidade. A ThyssenKrupp e suas rivais chegaram a avaliar uma possível consolidação no setor em 2009. A ArcelorMittal, maior siderúrgica do mundo, tornou sua unidade de aço inoxidável, a Aperam, independente em janeiro.

No ano passado, os preços do aço inoxidável na Europa caíram 13%, segundo dados da revista ¿Metal Bulletin¿ citados pela agência Bloomberg News. Ao mesmo tempo, os preços do níquel, usado na fabricação do produto, avançaram 12% na Bolsa de Mercadorias de Londres.