Título: Um país obeso
Autor:
Fonte: O Globo, 15/05/2011, Opinião, p. 7

RAFAELA NOGUEIRA

Considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um dos dez principais problemas de saúde pública do mundo, a obesidade vem crescendo em ritmo preocupante no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1974-75, 1,8% das meninas e 2,9% dos meninos entre 5 e 9 anos eram obesos. Já em 2008-09 houve um salto desse número para 11,8% das meninas e 16,6% dos meninos. Alguns estudos indicam que um terço das crianças obesas se transformam em adultos obesos. Esse dado é aterrorizante. Em alguns anos teremos na sociedade brasileira uma epidemia de doenças relacionadas à obesidade.

No Brasil não há mensurações quanto ao custo da obesidade e sobrepeso para o país. Em 2003 foi feito o primeiro levantamento elaborado pela Força-Tarefa Latino-Americana de Obesidade sobre os custos da obesidade no Brasil: R$1,1 bilhão ¿ esse foi o montante aproximadamente gasto a cada ano com internações hospitalares, consultas médicas e remédios para o tratamento do excesso de peso e das doenças ligadas a ele. Só o Sistema Único de Saúde (SUS) destinou R$600 milhões para as internações relativas à obesidade. Esse valor equivale a 12% do que o governo brasileiro despendia anualmente com todas as outras doenças. Se forem levados em consideração ainda os gastos indiretos (faltas ao trabalho, licenças e morte precoce), estima-se que a conta chegue a R$1,5 bilhão.

Será que não deveria haver uma agenda política para o problema? Será que já não está na hora de a sociedade começar um debate?

Alguns estados americanos estão fornecendo mais informação nutricional sobre a comida ingerida. Em Nova York, por exemplo, as cadeias de fast-food foram obrigadas a listar as calorias contidas em seus produtos. Outra possível intervenção, que não deve agradar muito, seria a de sobretaxar bens considerados menos saudáveis como refrigerantes, doces e etc.: a sobretaxação desestimularia o consumo desses produtos e tornaria mais atrativo o consumo de bens que trariam benefícios à saúde. Governos poderiam subsidiar comidas consideradas ¿saudáveis¿, como legumes e verduras.

O desafio ao se taxar bens é saber o que deve e o que não deve ser taxado. Outra possível ação preventiva, seguindo o exemplo do cigarro no Brasil, seria proibir a propaganda de produtos direcionados ao público infantil cujo conteúdo nutricional não se enquadre nos padrões recomendados por especialistas. Novamente fica a pergunta: quais seriam esses produtos? Não há uma resposta fácil. No entanto, cabe à nossa sociedade tentar encontrar uma solução para esse problema que se agrava a cada dia.

A obesidade infantil é um problema de saúde pública com consequências futuras graves para a sociedade. Está na hora de enfrentarmos o problema através de pesquisas sérias e não de opiniões sem embasamento científico. O momento exige seriedade. Vamos acabar com essa brincadeira.