Título: Jovens são jogados no mercado informal
Autor: Cristino, Vania
Fonte: Correio Braziliense, 06/08/2009, Economia, p. 16

Brasileiros entre 15 e 24 anos são os que mais sofrem com a falta de vagas. O desemprego é três vezes maior que entre os adultos

A dificuldade dos jovens em conseguir um trabalho decente vai além da pouca experiência. A falta de emprego para a população entre 15 e 24 anos está ligada à escassez e à precariedade dos postos de trabalho, que os empurram para o mercado informal. Na informalidade, eles enfrentam jornadas excessivas e, muitas vezes, abandonam os estudos. Esse círculo vicioso, que não deixa o jovem chegar à idade adulta em condições de disputar um mercado cada dia mais competitivo, é diagnosticado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), cujo escritório no Brasil acaba de preparar um estudo sobre o Trabalho Decente e a Juventude no Brasil.

Segundo a chefe do escritório da OIT no Brasil, Laís Abramo, o mundo do trabalho é ainda mais perverso para as jovens mulheres negras que vivem nas periferias das grandes cidades. O índice de desemprego desse grupo chega a incríveis 30,8%, enquanto que a taxa entre os jovens, de 16,8%, já é quase três vezes superior à dos adultos.

A fragilidade da população negra e pobre nas grandes cidades é alarmante. Pelo estudo da OIT, baseado em dados estatísticos da Pesquisa Nacional por Amostragem Familiar (PNAD) de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o percentual de jovens que não estudam e não trabalham é de 18,8%, mas passa para 29,7% se forem mulheres negras. Na maioria dos casos, segundo Laís Abramo, eles se encontram em atividades não remuneradas, no próprio âmbito familiar. São jovens que se dedicam às tarefas domésticas, cuidando dos próprios filhos, irmãos ou parentes idosos.

A maternidade adolescente ou precoce, de acordo com Laís, é um forte obstáculo à inserção das jovens no mercado de trabalho em igualdade de condições com outros brasileiros da mesma idade. Por isso, não basta crescimento econômico e qualificação para garantir o emprego. ¿São condições necessárias, mas não suficientes¿, afirmou. Segundo Laís, é preciso apoio à entrada ou à permanência no sistema educacional e também no mercado de trabalho, com a garantia da licença-maternidade e acesso às creches.

Exceção

O estudo da OIT destaca a elevada informalidade do mercado de trabalho para os jovens. O emprego com carteira assinada é uma exceção. Do total de 18 milhões de jovens ocupados no Brasil, cerca de 10,6 milhões estavam, em 2007, em ocupações informais. O mais afetado pela informalidade é o que possui menor nível de escolaridade. O déficit do emprego formal, segundo a OIT, chega a 14,3 milhões de postos para os jovens e abrange os 3,6 milhões de desempregados e os 10,6 milhões de informais.

¿Uma contínua e precária inserção do jovem no setor informal, no começo de sua carreira profissional, tende a gerar prejuízos e pode comprometer toda a sua trajetória profissional¿, avalia. A chefe do escritório da OIT no Brasil está convencida de que é preciso uma atenção especial à juventude como parte de uma política integrada de combate à informalidade que também leve em conta a elevada jornada de trabalho.

TAXA ABAIXO DA EUROPA O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse ontem, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado, que, pela primeira vez, a economia brasileira atingiu um nível de desemprego abaixo do da Europa. Para ele, não há dúvida de que a economia brasileira vem apresentando uma taxa de desemprego menor do que nos países da Europa e nos Estados Unidos. O presidente do Banco Central apresentou dados mostrando que, enquanto o desemprego começou a cair no Brasil, depois de ter subido com a crise financeira, a Europa mantém taxa de crescimento. No Brasil, a taxa, que chegou a 9% em março de 2009, caiu para 8,1% em junho. Na Europa, onde também estava em 9% em março, subiu para 9,4%. ¿O nível atual de desemprego no Brasil, embora mais alto do que o de 2008, está abaixo do de 2007¿, observou Meirelles.

14,3 milhões Déficit de emprego com carteira assinada entre jovens

16,8% Taxa de desemprego entre os jovens

Jornada excessiva

De acordo com o estudo da OIT, 15,3 milhões de jovens, o equivalente a 83,6% dos ocupados, têm jornada de trabalho acima de 20 horas semanais. Para 5,7 milhões deles, a carga de trabalho supera as 44 horas semanais estabelecidas legalmente. O impacto dessa jornada excessiva sobre a frequência escolar é forte. Entre os jovens ocupados, apenas 34,8% frequentam a escola. Entre os que estão fora da (População Economicamente Ativa (PEA), ou seja, não trabalham , 65,4% deles estão na escola.

A OIT reconhece avanços importantes no perfil educacional da juventude brasileira nos últimos anos, mas ainda destaca a persistência de desigualdades expressivas no acesso à educação.

¿Ainda há uma parcela relevante dos jovens com baixa escolaridade, fora da escola ou com defasagem escolar¿, observa Laís.

No geral, os jovens têm escolaridade acima dos adultos. O percentual com nove a 11 anos de estudo chega a 44,2%, enquanto que o de adultos com esse nível de escolaridade não passa de 24%. A diferença entre eles começa a aparecer quando se faz, por exemplo, a separação entre brancos e negros. O percentual de negros com até quatro anos de estudo é de 16,2%, mais do que o dobro do dos jovens brancos, cujo percentual é de 7,2%. Com 12 ou mais anos de estudo, a situação é inversa. Enquanto 13,3% dos jovens brancos têm esse tempo de escolaridade, o de negros é de 3,7%.(VC)