Título: Na prisão sob pressão
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Fonte: O Globo, 18/05/2011, O Mundo, p. 28

BRUXELAS e NOVA YORK

Apressão para que o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn ¿ preso em Nova York sob acusação de crimes sexuais ¿ renuncie ao cargo ganhou fôlego ontem durante uma reunião de ministros de Finanças europeus em Bruxelas. As declarações oficiais destacam o possível efeito do escândalo sobre a imagem do Fundo, mas, nos bastidores, a corrida é para definir quem será capaz de indicar o novo ocupante do cargo. A repercussão do episódio trouxe, ainda, preocupações quanto ao comportamento do euro e o desempenho de economias europeias em crise, como a Grécia.

Dois membros do conselho do Fundo disseram ontem à Reuters que a instituição está tentando entrar em contato com Strauss-Kahn na cadeia para que ele avalie sua situação no cargo. O conselho tem autonomia para destituí-lo, mas, segundo um dos funcionários a solução ideal seria que o número 1 do Fundo renunciasse. Outro membro ressaltou que ainda não há consenso entre os 24 participantes do conselho.

Em Bruxelas, a ministra de Finanças da Áustria, Maria Fekter, foi a autora das críticas mais enfáticas ao caso.

¿ Considerando a situação, com a fiança negada, ele tem de perceber por si mesmo que está ferindo a instituição.

A ministra das Finanças espanhola, Elena Salgado, disse que as ofensas foram ¿extraordinariamente sérias¿ e que Strauss-Kahn deve decidir por conta própria sobre sua saída.

¿ É preciso dar estabilidade às instituições ¿ disse ela, numa pressão mais sutil que a da colega austríaca.

Outros representantes europeus adotaram um tom mais ameno. O primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, disse que estava ¿muito triste e chateado¿ e ressaltou que Strauss-Kahn é um bom amigo.

Na cadeia, vigilância para evitar suicídio

O diretor-gerente era considerado uma aposta promissora para vencer as eleições presidenciais na França no próximo ano pelo Partido Socialista. Ontem, a líder do PS, Martine Aubry, fez um apelo aos correligionários para se concentrarem em 2012. Mesmo que o caso contra Strauss-Kahn não vá adiante, poucos avaliam que ele teria condições de ser escolhido.

Strauss-Kahn continua preso no complexo penal Rikers Island, em Nova York, após ter a fiança negada pela Justiça num suposto caso de agressão sexual a uma camareira de 32 anos, que nasceu na Guiné e atualmente vive no Bronx. A imprensa francesa identificou a mulher como Nafissatou Diallo. Ela é viúva, com uma filha de 15 anos. Segundo o ¿New York Times¿, há indícios de que o advogado do chefe do FMI, Benjamin Brafman, poderia mudar a linha de defesa e alegar que houve contato sexual, mas consensual ¿ até agora, a alegação é de que não houve qualquer contato. O advogado disse à corte que o exame de corpo de delito não seria consistente com um encontro forçado.

O irmão da camareira, que não teve seu nome divulgado, disse que recebeu um telefonema da irmã uma hora após o suposto incidente. Chorando muito, ela teria dito: ¿Alguém me fez algo muito ruim.¿

¿ Nenhuma família deveria passar por isso ¿ desabafou irmão.

Segundo a rede NBC, um médico do presídio recomendou como precaução que Strauss-Kahn seja vigiado para evitar que cometa suicídio. O chefe do FMI teria recebido roupas especiais e sapatos sem cadarço. Funcionários fazem checagens a cada 15 a 30 minutos. Na sexta-feira, um grupo de jurados deve anunciar se as provas são fortes o suficiente para o caso avançar.

Brigitte Guillemette, ex-mulher de Strauss-Kahn, defendeu-o ao ¿Le Parisien¿. Segundo ela, o ex-marido não é capaz de atos violentos. ¿Ele tem muitas falhas, mas não essa.¿