Título: Arquivos das Farc denunciam Chávez
Autor:
Fonte: O Globo, 12/05/2011, Opinião, p. 6

O ¿Dossiê das Farc¿, divulgado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IIES),de Londres, revela a extensão do envolvimento do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com a guerrilha narcoesquerdista da Colômbia. O documento foi elaborado apartir da análise de milhares de e-mails edocumentos dos arquivos eletrônicos apreendidos no ataque da Colômbia ao acampamento do chefe guerrilheiroRaúl Reyes, morto na ação no Equador , em 2008. Segundo o principal pesquisador ,James Lockhart Smith, oapoio de Chávez às Farc foi uma ¿política de Estado¿ desde sua subida ao poder . O dossiê mostra que Chávez usou as Farc para obter dividendos políticos num período de grande tensão com a Colômbia, então presidida por Alvaro Uribe. E para espezinhar os Estados Unidos, que mantêm uma estreita colaboração financeira e militar com o governo colombiano. A Venezuela ofereceu apoio lo-gístico, político, territorial, migratório e financeiro às Farc. Membros do governo de Caracas chegaram a pedir à guerrilha que desse treinamento a milícias pró-Chávez depois do golpe frustrado contra ele, em 2002, eaté que matassem opositores do coronel, embora não haja provas de que Chávez soubesse da encomenda. Quem também sai chamuscado do dossiê é o presidente do Equador , Rafael Correa, cuja campanha presidencial de 2006 teria recebido US$ 400 mil da guerrilha. Quito nega.

O trabalho do IIES, realizado ao longo de dois anos, mostra que, se Chávez prometeu usar petrodólares (US$ 300milhões) para comprar armas para os guerrilheiros colombianos, estes usaram dinheiro do narcotráfico para cimentar alianças. Ainda em1992, quando o en-tão coronel da ativa Hugo Chávez foi preso numa tentativa frustrada de golpe, seu movimento MBR-20 recebeu ajuda de US$ 150 mil das Farc. Teriam essa origem também os fundos que ajudaram a eleger Correa, no Equador . Umdos aspectos que transparece dos arquivos é a desfaçatez de Chávez, capaz demanter uma relação estratégica com as Farc, quando lhe interessa, e de descumprir as promessas depois. Num e-mail de um integrante do secretariado da guerrilha, o bolivariano é citado como ¿divisivo e ardiloso¿. Depois de eleito, o equatoriano Correa tampouco correspondeu ao que dele esperavam as Farc, embora um eventual relacionamento entre os dois lados possa ter sido abortado pela incursão colombiana em território do Equador ,que resultou na morte de Raúl Reyes. A ação aprofundou, na época, a tensão entre Venezuela e Equador ,de um lado, e a Colômbia, de outro. O sucessor de Uribe na Colômbia, Juan Manuel Santos, percebeu que seu país ea Venezuela teriam graves prejuízos se mantivessem a hostilidade mútua e decidiu esvaziar as tensões, tendo obtido reciprocidade de Chávez.

Tanto que, em nome da distensão, Bogotá preferiu não comentar as revelações do dossiê. De toda forma, emerge do documento o caráter não confiável de Chávez, cujas ações tendem a desestabilizar sua área de influência e a própria América do Sul. É óbvio que a distensão com aColômbia é oque mais lhe interessa nomomento. Como lhe interessa a etrada da Venezuela no Mercosul, pendente apenas de um ¿sim¿ do Congresso do Paraguai.Não se concebe é que continue a ideia de se permitir a este semeador de discórdias e desconfianças atuar num projeto de integração sul-americana.