Título: Holanda declara seu apoio a Lagarde no FMI
Autor: Berlinck, Deborah; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 24/05/2011, Economia, p. 20

México terá candidato próprio. Mantega propõe que substituto apenas termine mandato de Strauss-Kahn

PARIS, BRASÍLIA e WASHINGTON. Cresce o apoio europeu à candidatura da ministra da Economia francesa, Christine Lagarde, ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Ontem, a Holanda se uniu a França, Alemanha e Reino Unido na defesa de seu nome para a sucessão de Dominique Strauss-Kahn - mesmo que a própria Lagarde tenha dito ao jornal espanhol "El País" que era prematuro apresentar-se para dirigir o FMI.

- É extremamente importante que a Europa tenha um candidato único, e eu gostaria que fosse Christine Lagarde - disse Jan Kees de Jager, ministro das Finanças holandês.

Do lado dos emergentes, o México saiu à frente ao informar que apresentará a candidatura do presidente de seu Banco Central, Augustín Carstens. Mas uma fonte do governo brasileiro afirmou à Reuters que o país não pretende apoiar Carstens por considerá-lo conservador e com chances quase nulas.

Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que o Brasil quer mais tempo para escolher o novo comandante do FMI. Segundo ele, o país vai defender que o substituto de Strauss-Kahn apenas cumpra o mandato deste, que terminaria no fim de 2012:

- O Brasil vai examinar as candidaturas que serão apresentadas até 10 de junho. O processo é meio apertado e se encerra no dia 30. Estamos examinando a possibilidade de sugerir que essa indicação de agora seja apenas provisória. Dessa maneira teríamos mais tempo para amadurecer e conhecer melhor os candidatos.

Mantega lembrou que Strauss-Kahn, quando estava em campanha, foi aos países membros do FMI apresentar propostas. O ministro reconheceu ainda que não há qualquer nome brasileiro que preencha os requisitos necessários para a vaga no momento.

O economista Marc Weisbrot, codiretor do Center for Economic and Policy Research, de Washington, prevê mais um europeu no comando do FMI, pois só haverá mudanças profundas na instituição quando os países emergentes conseguirem atuar em bloco.

- Os países emergentes estão permitindo ao G-7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) controlar o Fundo, como já era em 1945. Os emergentes precisam fazer como na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde se uniram - afirmou. - Se os emergentes agirem em bloco, poderão ter um grande poder.

Investigação na França pode atrapalhar Lagarde

Enquanto isso, a Europa se une em torno de Lagarde, de 55 anos, considerada pela revista "Forbes" uma das 15 mulheres mais influentes do mundo. Divorciada e com dois filhos, formada em Direito, ela assumiu em 2005 o Ministério do Comércio no governo Jacques Chirac, depois de 20 anos trabalhando nos EUA, onde chegou à presidência do escritório de advocacia Baker & McKenzie.

Em 2007, ela se tornou a primeira mulher a assumir o Ministério da Economia, a convite de Nicolas Sarkozy. Com pouco mais de um ano no cargo, Lagarde enfrentou a crise financeira global e atribuiu parte da crise à cultura dominante de homens nos bancos. Em 2009, o jornal britânico "Financial Times" considerou-a melhor ministra de Finanças da Europa.

- Ela é astuta politicamente e tem uma personalidade forte. Nas reuniões financeiras globais, ela é tratada quase como uma estrela de rock - disse o economista Kenneth Rogoff à rede BBC.

Mas há um problema. Um procurador francês ameaça abrir uma investigação sobre a atuação de Lagarde na disputa entre o empresário Bernard Tapie, amigo de Sarkozy, e o banco Crédit Lyonnais, relativa à venda da Adidas, em 1993. Em 2008, ela ordenou que um painel especial de juízes decidisse e encerrasse o caso. Um ano depois, Tapie ganhou uma indenização de 285 milhões. Lagarde nega ter cometido qualquer erro. Mas, depois do escândalo de Strauss-Kahn, o Conselho do FMI pode não querer se arriscar.

(*) Correspondente

COLABOROU Fernando Eichenberg, correspondente, com agências