Título: Mais uma batalha na guerra pelo Código
Autor: Damé, Luiza; Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 25/05/2011, O País, p. 4
Ambientalistas e ruralistas deixam novamente o clima tenso no Congresso
BRASÍLIA. Ontem, o clima começou tenso logo cedo no Congresso Nacional. Enquanto um grupo de agricultores patrocinados pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) ocupava o saguão principal da entrada do Congresso, militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), contrários ao projeto do Código Florestal, eram barrados.
O grupo da CNA foi prestigiado com uma enorme e farta mesa de lanches montada pela confederação. Também foi instalada uma grande maquete dos biomas brasileiros, com plantações, de soja e outros produtos, em encostas e florestas.
Do lado de fora do Congresso, agricultores ligados ao MST, à Federação dos Trabalhadores da Agricultura (Fetraf) de Pernambuco e também à Central Única dos Trabalhadores (CUT) queriam entrar no prédio, revoltados com o que consideraram tratamento privilegiado para os concorrentes da CNA. Eles ameaçavam invadir.
Um segurança da Câmara informou que a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que também é presidente da CNA, teria obtido autorização para levar o grupo até o saguão. Depois de muita conversa, e intervenção de deputados do PT ligados aos sem-terra, um grupo de 200 militantes também foi para o interior do prédio.
Os representantes da CNA estavam na metade do saguão que integra o Senado. Os pequenos agricultores da Fetraf e do MST entoaram palavras de ordem como "Fora, Aldo" (relator do Código) e se dirigiam aos agricultores da CNA: "Você aí parado também é explorado". Kátia Abreu afirmou que a entidade levou a Brasília cerca de mil manifestantes. O MST estimou em 500 os seus militantes, que, porém, eram mais barulhentos.
Nos corredores, durante todo o dia, era intenso o movimento dos líderes e de todos os envolvidos na busca de um acordo para se votar o código. O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), circulava pela Casa cochichando com o líder do PT, Paulo Teixeira. O líder do governo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), também só conversava ao pé do ouvido de Teixeira e outros. O procedimento é para evitar que jornalistas, na perseguição aos líderes, ouvissem os diálogos.
A tensão também marcou o confronto entre os que defendiam posições contrárias. Valdir Colatto (PMDB-SC), um dos líderes da bancada ruralista, acusou Chico Alencar (PSOL-RJ) de não entender nada relacionado ao código e o chamou de "urbanoide". Alencar reagiu.
- Não vou descer a esse nível e chamá-lo de ruraloide. São expressões que remetem a debiloide - disse Alencar.
Diferentemente da votação de 11 de maio, quando ocorreu obstrução, os ambientalistas estavam presentes ontem nas galerias. Nos discursos dos ruralistas, manifestavam-se contra. Representantes de entidades não governamentais ambientalistas também circulavam pelo Congresso. No momento da discussão, Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e candidata derrotada nas eleições presidenciais de 2010, estava no meio do plenário, assim como a senadora Kátia Abreu.