Título: Cracolândia é alvo 3ª operação em 2 meses
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Fonte: O Globo, 26/05/2011, Rio, p. 18

Nova ação no Jacarezinho apreende 60 adultos e 16 menores; desta vez, crianças serão obrigadas a fazer tratamento

UM FUNCIONÁRIO da prefeitura acorda um jovem durante a operação realizada na cracolândia do Jacarezinho: foram recolhidos 16 menores

O FUZIL AK-47 e a maconha apreendidos num barraco perto da cracolândia

UM MENINO é recolhido por um agente da Secretaria de Assistência Social na favela

Waleska Borges

Uma operação da Secretaria municipal de Assistência Social realizada ontem na cracolândia do Jacarezinho recolheu 76 pessoas, entre elas 16 crianças. Foi a nona ação desse tipo na cidade desde março e a terceira no Jacarezinho. Neste período já foram recolhidos 538 adultos e 153 crianças e adolescentes. A maioria não aceitou o tratamento e voltou para as ruas. A partir de agora, no entanto, menores que forem comprovadamente dependentes químicos serão obrigados a ficar internados em casas de acolhimento especializadas. Três dessas instituições funcionam na Zona Oeste e uma quarta, a Casa Viva, foi inaugurada terça-feira, em Laranjeiras.

Segundo o secretário de Assistência Social, Rodrigo Bethlem, a mudança no procedimento em relação aos menores recolhidos foi adotada após conversas com o Ministério Público e com a Vara da Infância e da Juventude:

¿ Não existe uma determinação clara no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas, em nosso entendimento, em alguns casos, o direito de ir e vir da criança e do adolescente não pode suplantar o dever do Estado de garantir a integridade física dessas pessoas. Elas, muitas vezes, não têm condição de julgar se devem ou não ser internadas.

O secretário informou ainda que em breve será publicado um protocolo de abordagem e acolhimento de menores de idade, para que fique claro em que situações a criança e o adolescente podem ficar retidos no abrigo.

Pedra apreendida no Jacarezinho pode ser de oxi

A operação na cracolândia do Jacarezinho contou com cerca de 90 agentes. Durante a ação, policiais militares apreenderam 11 quilos de maconha, um quilo de cocaína e várias pedras de crack, além de facas e tesouras. Os policiais suspeitam que uma das pedras recolhidas possa ser de oxi (droga de efeito devastador no organismo, feita com pasta de cocaína, gasolina e cal ). Segundo o comandante do 3º BPM (Méier), coronel Ruy França, a polícia vai enviar o material para análise.

¿ A ideia é fazer operações semanalmente ¿ afirmou.

No momento da operação, muitos menores dormiam próximo à linha férrea, onde um suposto ponto de venda de drogas foi destruído pelos policiias. Para tentar fugir dos agentes, um menino de 12 anos pulou num rio. Levados para ônibus, alguns dos adultos recolhidos disseram que não ficariam nos abrigos. De acordo com informações da prefeitura, apenas 30% das pessoas retiradas das ruas aceitam o tratamento contra a dependência.

Segundo agentes do município, atualmente há na cidade outros quatro pontos onde muitos usuários de crack se reúnem. Essas cracolândias ficam na Rua Leopoldo Bulhões, em Manguinhos; na Rua São Luiz Gonzaga, em São Cristóvão; na Rua Palas, na Pavuna; e na Avenida Brasil, próximo ao viaduto de acesso à Ilha do Governador.

Policiais recolhem fuzil avaliado em R$80 mil

Durante a operação na cracolândia do Jacarezinho, policiais da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) conseguiram apreender, graças a denúncias, um fuzil AK-47 (avaliado em R$80 mil no mercado negro), 90 quilos de maconha, munição e carregadores. O material estava escondido num buraco no chão de um barraco na localidade conhecida como Concórdia. A casa estava vazia e ninguém foi preso. O valor da carga de maconha foi estimado em R$50 mil.

De acordo com a delegada Valéria de Aragão, da DPCA, que participou da operação, os menores encontrados na cracolândia foram levados para a delegacia, onde os policiais fizeram um levantamento de mandados de busca e apreensão pendentes. Pelo menos dois deles ficaram detidos. Ainda segundo Valéria, geralmente o uso do crack pelos menores está relacionado com a prática de furtos:

¿ O crack não é apenas um problema de segurança pública. Também é social, de saúde e de educação. Cada órgão deve trabalhar com a sua estrutura para combater o uso dessa droga.

COLABOROU Renata Leite