Título: Cresce a tensão política na Argentina
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Fonte: O Globo, 22/05/2011, Opinião, p. 6
Há tempos a Argentina é um país politicamente à beira de um ataque de nervos - em grande parte devido ao caráter autoritário e de confronto que Néstor Kirchner imprimiu a sua inegável liderança. Com a morte dele, a tensão aumentou. Na Presidência, a viúva, Cristina, perdeu o grande articulador e passou a radicalizar, em alguns aspectos, como na intervenção na economia; a ouvir um reduzido número de assessores e a adiar decisões. Entre elas, a da própria candidatura à reeleição.
Em artigo no GLOBO, o economista Fabio Giambiagi lembrou a frase do jornalista portenho Joaquín Morales Solá: "Para a China, toda crise é uma oportunidade. Para a Argentina, toda oportunidade é uma crise." Ela se aplica ao momento pelo qual passa o país vizinho. Cristina conta com quase 50% de aprovação e parece ter muito a seu favor: a oposição não consegue forjar uma aliança eleitoral consistente; a economia cresce a taxas elevadas (com as inconsistências de sempre); o desemprego está nos níveis mais baixos dos últimos 20 anos; e a confiança do consumidor bateu recorde em março. Mas as expectativas do mundo dos negócios de que o clima para investimentos melhorasse com a saída de cena de Néstor se esfumaçaram. Cristina impôs controle de preços, manteve a manipulação dos índices de inflação, reforçou a influência do Estado no setor privado, além de outras medidas de desincentivo aos investimentos.
Em discurso recente, ela disse: "Há oito anos começava um sonho e hoje temos que ampliá-lo", referindo-se ao kirchnerismo, uma mescla de políticas econômicas intervencionistas, luta pela punição de crimes contra os direitos humanos da ditadura e nostalgia pelos dias em que outro casal peronista, Perón e Evita, dominava a política argentina.
O silêncio sobre sua candidatura mantém o mundo político em suspense. Ao mesmo tempo, faz declarações do tipo: "Não morro de amores por voltar a ser presidente. Já dei tudo o que tinha para dar. Não vão me pressionar. Quero dizer-lhes que faço um imenso esforço pessoal e físico para seguir adiante." Será uma que não tem mesmo condições de concorrer? Ou é uma advertência ao maior expoente do sindicalismo local, Hugo Moyano, presidente da CGT, de que não se dobrará às pressões para que o candidato oficial a vice-presidente seja um líder sindical?
O viés autoritário aberto com Néstor se agrava com Cristina e se traduz na forma brutal e intimidatória com que muitas questões são tratadas. Se a inflação dispara, quebra-se o termômetro (com uma intervenção no Idec, o IBGE argentino). Para evitar críticas, manipula-se parte da imprensa com verbas estatais. Se a imprensa independente incomoda, baixam-se normas sufocando as empresas de comunicação e mobilizam-se piqueteiros de sindicatos favoráveis ao governo para impedir a distribuição das edições de diários como "La Nación" e "El Clarín".
Vindo de cima, o autoritarismo se entranha nas instituições argentinas, e a política do confronto gera um modelo de exclusão do outro, do "inimigo". Para Giambiagi, "há quem sustente que o fascismo está entrando pela porta dos fundos na política argentina". Ele vê o país "no túnel do tempo". Está chegando a 1940. É pena.