Título: No fundo, dois pesos e duas medidas
Autor: Beck, Martha; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 31/05/2011, Economia, p. 21

NOVA YORK. No Fundo Monetário Internacional (FMI), há um conjunto de normas éticas para o pessoal administrativo e outro para seus 24 diretores. Nos últimos quatro anos, o Fundo fortaleceu o sistema de controles internos para pegar casos de má conduta entre seus 2.400 funcionários, criando uma linha telefônica especial para queixas como assédio, que são publicadas em relatório anual, e o cargo de conselheiro de ética para investigar esses casos. Mas os membros da diretoria ficam acima desses controles: eles não podem ser investigados pelo conselheiro de ética.

O Conselho do Fundo é responsável por supervisionar tanto os diretores quanto o diretor-gerente. Para isso há um comitê formado por cinco pessoas, cujo trabalho é confidencial. A única punição prevista é uma carta de advertência.

¿ Há vários controles quando se trata dos funcionários, mas não para a liderança ¿ disse Katrina Campbell, especialista em ética da consultoria Global Compliance.

A ética interna do FMI foi posta sob o microscópio depois que Dominique Strauss-Kahn, acusado de atacar sexualmente uma camareira de hotel em Nova York, renunciou ao cargo de diretor-gerente.

Em 2007, Katrina fez um estudo sobre a política de ética do Fundo para o Escritório de Avaliação Independente, do próprio organismo. O relatório considerou o código de conduta do Conselho vago, com mais recomendações que regras, mas classificou o código para os funcionários de detalhado.

Ao ser nomeado diretor-gerente em 2007, Strauss-Kahn passou por uma investigação interna por ter tido um caso com uma subordinada. Como o conselheiro de ética não tinha autoridade, foi contratado um escritório de advocacia. Concluiu-se que Strauss-Kahn não abusara de sua autoridade, mas ele foi criticado por falha de julgamento e teve de se desculpar.

William Murray, porta-voz do Fundo, apenas disse que investigações de ética podem incluir queixas de intimidação ou comportamento agressivo.

O comitê de ética do Conselho foi criado em 1998. Mas Katrina apurou que, até 2007, nunca havia se reunido. O Fundo disse não poder revelar se o comitê se reuniu desde então porque seu trabalho é confidencial. (Do New York Times)