Título: Toma lá, dá cá
Autor: Beck, Martha; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 31/05/2011, Economia, p. 21
No Brasil, candidata ao FMI promete voz a emergentes. País só apoiará escolha se assumir diretoria estratégica
Candidata ao comando do Fundo Monetário Internacional (FMI), a ministra da Economia francesa, Christine Lagarde, começou ontem pelo Brasil um giro em busca do apoio dos países emergentes. Lagarde fez um discurso sob medida aos ouvidos dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ao defender maior participação dessas economias no Fundo e afirmar que "o FMI não pertence a ninguém". Porém, ela deixou o país, rumo à China, informada de que só contará com o apoio do governo brasileiro se o Brasil for contemplado com alguma diretoria estratégica do Fundo, tendo em vista que os principais cargos de direção estão hoje nas mãos de europeus e americanos.
Embora tenda a apoiar a ministra francesa para a direção do FMI - desde, claro, que ela assuma compromissos com a reforma da instituição multilateral e o peso maior dos países em desenvolvimento -, o Brasil só anunciará o nome de seu candidato após o próximo dia 10, quando terminam as inscrições de interessados em substituir o também francês Dominique Strauss-Kahn. Ele renunciou ao cargo há cerca de duas semanas, sob acusação de assédio sexual nos Estados Unidos.
Por isso, oficialmente se trabalha com a candidatura de duas pessoas: de Lagarde e do presidente do Banco Central do México, Agustin Carstens, que também está a caminho de Brasília, para encontros com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, amanhã e quinta.
- O FMI não pertence a ninguém, mas a todos os seus países-membros. Eu considero que temos de ter a representatividade de todos eles, inclusive dos emergentes, dentro da direção - afirmou Lagarde, em rápida entrevista ao lado de Mantega.
Lagarde defende câmbio previsível
Num afago especial ao Brasil, ela afirmou que a escolha do país para o início de sua viagem foi clara e óbvia:
- Escolhi o Brasil em função de seu tamanho, da importância do PIB (Produto Interno Bruto) e de sua relevância dentro do cenário internacional - disse Lagarde, que, além de ir à China, viajará ao Oriente Médio.
Outro ponto destacado por Lagarde, que certamente agradou ao governo brasileiro, foi a defesa de uma coordenação mundial no câmbio, de forma que seja mais estável e previsível. Ao ser perguntada por jornalistas sobre a estratégia de vários países de desvalorizarem suas moedas como forma de dar mais competitividade a seus produtos no comércio internacional, ela afirmou:
- No que concerne ao comércio, não se pode olhar o câmbio de forma generalizada. Tudo depende se um país é exportador líquido ou importador líquido. O importante é que o FMI trabalhe por uma coordenação, de forma que o câmbio seja estável, previsível e não manifeste volatilidade excessiva.
Mantega elogiou a colega e voltou a defender mais voz aos emergentes no Fundo, com o fim do critério de nacionalidade e o aumento de representantes dos países em desenvolvimento em cargos estratégicos. O critério estabelecido desde a criação dos organismos multilaterais, pelo acordo de Bretton Woods (1944), é de que um americano deve comandar o Banco Mundial e um europeu, o FMI.
- Essa regra está ultrapassada. O que importa é competência, inteligência e compromisso com reformas. Elas representam um FMI mais forte e com mais participação dos emergentes na solução de problemas mundiais - disse o ministro.
Já Lagarde afirmou:
- A eleição para o FMI deve ser feita pelo mérito. Ser europeia e francesa não é um benefício, mas também não deve ser uma falha ou um inconveniente.
Tombini, que também se reuniu com Lagarde, afirmou à ministra que a autoridade monetária defende a continuidade das reformas já anunciadas pelo Fundo, bem como a agenda de reformas do G-20, grupo das 20 maiores economias mundiais. Em pequena nota publicada ontem, Tombini informou ter considerado "positivos os avanços anunciados no processo de eleição do novo diretor-gerente do FMI".
Lagarde disse que o governo brasileiro não fez qualquer exigência para apoiá-la como candidata. Segundo ela, é natural que o país espere o fim do prazo para a apresentação de candidaturas, no dia 10 de junho, antes de declarar seu voto.
Brasil não ocupa posto-chave hoje
No entanto, nos bastidores, sabe-se que Brasil e China têm feito pressões para que os emergentes assumam alguma diretoria estratégica dentro do FMI, como as de estudos (de Pesquisa ou de Estratégia, Políticas e Avaliação, por exemplo). Segundo os técnicos do governo, o corpo do Fundo - suas diretorias, seus departamentos, etc. - ainda é muito dividido entre europeus e americanos conservadores.
Um integrante da equipe econômica resumiu:
- Hoje, o máximo que o Brasil ocupa na cúpula da instituição é a assessoria em direitos humanos.
O Brasil não conseguiu emplacar a ideia de um mandato-tampão para cobrir o restante do tempo que o ex-comandante da instituição teria até 2012. Não recebeu apoio do Fundo e a proposta foi abandonada.
Quanto aos Brics, uma fonte explicou que o bloco está tentando manter a união, "mas não necessariamente somos obrigados a votar unidos".
COLABOROU: Patrícia Duarte