Título: Tentativa de lulismo no Peru
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Fonte: O Globo, 08/06/2011, Opinião, p. 6
O presidente eleito do Peru, Ollanta Humala, aprendeu com a derrota de 2006 para Alan García, quando se apresentou como um nacionalista, defensor do estatismo e de um referendo para mudar a Constituição. Ou seja: a aplicação do "kit bolivariano" de Hugo Chávez, que aparecia como financiador de sua campanha. Chávez não é bem visto no Peru; Lula, sim. A assessoria do militar percebeu que a transformação do barbudo Lula sindicalista no "Lulinha paz e amor" foi o que o levou a ganhar a eleição presidencial no Brasil na quarta tentativa. Foram mobilizados, então, marqueteiros do PT para aplicar a mesma receita ao candidato do Ganha Peru. Ele passou a se apresentar como a versão peruana de Lula, prometendo desenvolvimento com inclusão social e afastando-se de Chávez.
Humala imitou Lula nos meses anteriores à eleição. Passou a usar linguagem mais moderada e deu garantias de manutenção das instituições e da ordem econômica. Lula assinou a Carta ao Povo Brasileiro e Humala fez o mesmo: firmou documento no qual se comprometeu a respeitar os contratos e manter o crescimento do país. Como no Brasil de Lula, no Peru os mercados despencaram com a vitória de Humala sobre Keiko Fujimori. Ontem já se tinham recuperado, em grande parte.
Pode-se dizer que a primeira fase da aplicação da receita lulista foi bem-sucedida no Peru, na medida em que permitiu a vitória do militar nacionalista. Mas agora vem a parte mais difícil: manter, no poder, as promessas de campanha. Cabe agora a Humala mostrar que sua mudança não foi apenas uma jogada eleitoral. Na campanha, ele trocou o "plano nacionalista" por "democracia" e não falou mais em mudar a Constituição. Mas o canto de sereia do chavismo está no ar. Venezuela, Equador e Bolívia, os bolivarianos, saudaram a entrada de um novo sócio no clube.
A economia do Peru avança a taxas quase chinesas, mas falha na distribuição dos benefícios do espetáculo do crescimento. Um bom caminho para Humala seria imitar, também aqui, a política lulista: manter sólidos fundamentos econômicos, mas adotar programas de inclusão social, pois cerca de 30% dos peruanos ainda vivem na miséria.
O Peru tem problemas históricos com o Chile. Humala agirá bem se adotar, com o vizinho, a postura do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que logo após eleito desarmou a crise entre seu país e a Venezuela.