Título: Na posse de Ideli, Dilma defende conciliação
Autor: Gois, Chico de; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 14/06/2011, O País, p. 10
Nova ministra das Relações Institucionais afirma que será "firme nos princípios e afável na abordagem"
BRASÍLIA. Em seu discurso na solenidade que marcou a troca de ministros da Pesca e da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), a presidente Dilma Rousseff disse que valoriza a política e que a meta de gerar desenvolvimento econômico e social só será alcançada se o governo souber lidar com conflitos e diferenças. O tom foi de conciliação, depois de, semana passada, ela ter desautorizado negociações do PT da Câmara, que queria fazer do líder do governo na Casa, Cândido Vaccarezza (PT-SP), o substituto de Luiz Sérgio na articulação política.
A nova articuladora do governo, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, também afagou o Congresso, palco de negociações de projetos de interesse do governo. Várias citações ainda foram dispensadas ao vice Michel Temer, do PMDB.
Para Dilma, governo é uma grande coalizão
Dilma afirmou que não vê dicotomia entre um governo técnico e um político. Deixou claro que valoriza muito a eficiência, mas admitiu que as decisões políticas constituem a base das opções governamentais:
- Sem dúvida, a afinidade do meu governo com a política se manifesta pelo imenso respeito pelo Congresso Nacional e pelo poder Judiciário, base dos poderes constituídos junto com o Executivo - declarou. - A importância que meu governo atribuiu à atividade política se reflete na compreensão de que a continuidade das grandes transformações necessárias ao desenvolvimento econômico e social do Brasil só pode nascer da negociação, da articulação de interesses e da nossa capacidade de identificar afinidades e convergências onde, à primeira vista, só parecem existir conflitos e diferença.
Mais de uma vez, Dilma chamou o ministro da Pesca, Luiz Sérgio, e a de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, de amigos. Fez questão de dizer que não abrirá mão da colaboração de Luiz Sérgio, trocado de pasta, depois que o PT da Câmara não lhe deu sustentação para permanecer no cargo.
- O governo não é só o poder Executivo, mas a ampla coalizão que soubemos pactuar e que representa, antes de mais nada, o povo que nos elegeu - afirmou a presidente.
Depois de agradecer à presidente pela oportunidade de assumir a SRI - e citando sempre ao governo "da presidente Dilma e do vice Michel Temer" -, Ideli afirmou que seu trabalho será conversar muito com todos os integrantes da base aliada. Bem humorada, disse que aprendeu a conciliar:
- Não que me arrependa das lutas que tive de enfrentar, mas sempre ganhei mais batalhas conciliando do que divergindo. A Ideli dos oito anos no Senado cumpriu tarefas e responsabilidades diferentes das que inicio hoje. Serei firme nos princípios e afável na abordagem.
Ciente de que o pagamento das emendas e o preenchimento de cargos de segundo escalão são as principais reivindicações dos aliados, Ideli adiantou que nem sempre será possível atendê-las:
- Por vezes, o cobertor é curto, mas temos de lutar para que todos fiquem aquecidos.
Aos líderes do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, e no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), Ideli pediu ajuda para que trabalhem em coesão:
- Peço a mesma união e ajuda aos dois líderes do governo na Câmara e no Senado. Formaremos, com toda certeza, um time coeso. Nossa disposição, tenho certeza, é de trabalhar juntos, parceiros. Contem comigo, conversem comigo, divirjam e convirjam comigo.
Luiz Sérgio: "Fiz o que era possível"
Já Luiz Sérgio, que assumiu o Ministério da Pesca, disse ter consciência tranquila após sua passagem pela SRI:
- Tenha consciência tranquila de que, dentro do raio de ação da pasta, fiz o que era possível - afirmou, numa indireta ao esvaziamento da SRI, no período em que Antonio Palocci foi chefe da Casa Civil.]
Ele terminou seu discurso lembrando Fernando Pessoa:
- Navegar é preciso, viver não é preciso.
Ideli pediu ao colega que a substituiu:
- Cuide bem dos meus peixinhos!
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), disse que a expectativa é a de que a relação entre governo e Congresso melhore. E Jucá prometeu apoio do PMDB.