Título: Relação trincada
Autor: Rothenburg, Denise
Fonte: Correio Braziliense, 13/08/2009, Política, p. 2

Divergência entre PT e PMDB gera greve na Câmara por conta de emendas e ameaça aliança em torno de Dilma

Líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves busca alternativas para aplacar a insatisfação da bancada. Reunião com Lula tentará mudar o cenário

Eles não se entendem sobre a crise no Senado(1), divergem quanto à regulamentação da exploração de petróleo na camada pré-sal e têm dificuldades para fechar alianças na maioria dos estados. A lista citada contém apenas alguns exemplos do contencioso que começa a desgastar o casamento entre PT e PMDB, partidos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer ver juntos na disputa presidencial de 2010 em torno da candidatura de Dilma Roussef. E, como se não bastassem essas desavenças, ontem no início da noite os deputados deflagraram uma greve no plenário da Câmara, puxada especialmente pelos peemedebistas, os mais insatisfeitos com a não liberação das emendas parlamentares incluídas no Orçamento da União.

A paralisação ocorre depois de quatro meses de espera pela liberação de R$ 1 bilhão, prometido para atender as obras que os deputados incluíram no Orçamento para fazer bonito em suas bases eleitorais, principalmente nos pequenos municípios. ¿Hoje, eu recebi aqui 32 parlamentares. São pequenas adutoras, postos de saúde, obras que chegam lá na comunidade e foram incluídas na lei orçamentária, mas que não estão sendo cumpridas. Eu, como líder, não posso deixar de fazer o que pede a minha bancada¿, comenta o líder Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que tenta apagar os incêndios do partido com o governo.

Internamente, os peemedebistas avaliam que é preciso resolver com urgência, além da questão das emendas orçamentárias ¿ represadas pelo ministro do Planejamento, o petista Paulo Bernardo ¿ o problema do Senado. Lá, o PT faz questão de abrir pelo menos uma investigação contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Só que Sarney não deseja a reabertura dos processos (veja reportagem na página 3). Hoje, mesmo que o PT termine agindo da forma que Sarney deseja, a avaliação dos peemedebistas é a de que a relação entre os partidos trincou.

Viúvos

O PMDB também reclama que só foi sondado para se sentar à mesa da coordenação política, colegiado dominado por petistas, há pouco tempo. E, mesmo assim, o convite ainda não saiu do papel. Num dos momentos em que José Múcio (PTB) esteve para deixar o cargo de ministro de Relações Institucionais, cogitou-se um convite ao PMDB, mas hoje está praticamente fechado que o cargo voltará para as mãos do PT.

A turma que trabalha para segurar o casamento está se programando para conversar com o presidente Lula na semana que vem e tentar resolver pelo menos parte das arestas que estão no caminho para a aliança de 2010. A ideia é passar o mapa dos estados, caso a caso, e verificar o que dá para salvar. ¿Se isso não ocorrer logo, daqui a pouco não dará para salvar nada¿, alerta Henrique Eduardo Alves.

Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o deputado Geraldo Resende (PMDB) disse que os projetos políticos do PT e do PMDB são inconciliáveis: ¿Estava tudo certo para apoiar o André Puccinelli, mas agora o PT decidiu lançar a candidatura do Zeca do PT e o PMDB deve voltar a conversar com o PSDB e com o DEM¿, afirma.

Em outra frente, o PMDB vai abordar de forma mais incisiva a posição em relação ao pré-sal. A impressão dos senadores peemedebistas é de que o governo, percebendo que a regulamentação vai demorar, decidiu fortalecer a posição da Petrobras e da Agência Nacional do Petróleo, que tratam direto com o Planalto. Assim, o PMDB do ministro Edison Lobão fica meio à margem na foto do governo Lula sobre a exploração do pré-sal.

Existe, ainda uma queda de braço no que se refere aos royalties. A área econômica defende que, do pacote de propostas sobre o marco regulatório do pré-sal a ser enviado ao Congresso, conste mudança nos royalties destinados aos estados produtores. Eles passariam a ir para a União, que distribuiria aos estados, produtores ou não. O PMDB do Rio já levou o caso ao ministro Edison Lobão, que ficou de rever a ideia, mas a área econômica força no sentido contrário.

1 - Lina na CCJ A ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira foi convidada ontem pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Responsável por articular o convite, antecipado pelo Correio, a oposição espera que Lina confirme na CCJ que se reuniu a sós com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em dezembro passado. Segundo Lina, Dilma teria feito um pedido para que ela encerrasse uma investigação contra o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Dilma nega ter se encontrado a sós com Lina. A ex-secretária, que tem o direito de não aceitar o convite, pode ir à CCJ na próxima terça-feira.

Coleção de arestas

Os principais entraves entre os dois maiores partidos da base do presidente Lula

Emendas Como são em maior número, os peemedebistas são os que mais brigam pela liberação das emendas do Orçamento da União e puxam a paralisação em plenário. O maior freio às emendas vem do ministro do Planejamento, o petista Paulo Bernardo

Pré-sal Hoje, a Petrobras, a ANP e a Casa Civil estão praticamente comandando todo o processo sem deixar muito espaço para que predomine a visão do PMDB, que tem o Ministério de Minas e Energia, especialmente em relação à questão dos royalties.

Coordenação política Não se fala mais em nomear um peemedebista para o cargo de ministro de Relações Institucionais.

Senado Hoje, o maior entrave para acabar com as labaredas sobre Sarney, segundo seus aliados, chama-se Aloizio Mercadante.

Eleições 2010 Na Bahia, Geddel Vieira Lima (PMDB) se coloca como candidato contra Jaques Wagner (PT). Em São Paulo, o PMDB está com José Serra (PSDB). Em Mato Grosso do Sul, a aliança ¿micou¿. No Pará, Jader Barbalho começa a trabalhar para que o PMDB lance candidato próprio. No Rio Grande do Sul, não há conversa possível. No Rio de Janeiro, a candidatura de Lindberg Farias (PT) começa a ganhar musculatura e o partido não pretende apoiar a reeleição de Sérgio Cabral Filho.