Título: Marcha estudantil mostra fim de trégua a Piñera
Autor: Azevedo, Cristina
Fonte: O Globo, 01/07/2011, O Mundo, p. 29

Passeata reúne mais de 150 mil na capital chilena e termina com 20 pessoas presas em confrontos isolados

MANIFESTANTES CARREGAM um caixão com os dizeres "educação popular", em Santiago: estudantes dizem que depredadores se infiltraram na passeata

RIO e SANTIAGO. Passada a trégua dada pelos chilenos após o terremoto de fevereiro do ano passado, o presidente Sebastián Piñera enfrenta agora um tremor político, que ontem assumiu a forma de uma passeata estudantil. Apesar de o governo ter adiantado as férias escolares na tentativa de desmobilizá-los, os estudantes reuniram mais de 150 mil pessoas em Santiago, entre alunos, professores, pais e sindicalistas, segundo cálculos da polícia. Os estudantes falam em 400 mil, num protesto realizado também em outras cidades do país. Pedindo educação pública e de qualidade, eles marcharam no Centro de Santiago, numa manifestação que registrou confrontos isolados, com a polícia usando gás lacrimogêneo, e manifestantes respondendo com pedras. A passeata terminou com 20 presos.

As queixas contra um sistema educacional superior caro e em que escolas públicas são administradas por prefeituras são antigas e já haviam embalado a ¿revolução dos pinguins¿, uma referência ao uniforme dos secundaristas, durante o governo de Michelle Bachelet. Mas, nas últimas três semanas, elas ganharam força, capitaneadas principalmente pelos universitários. Eles exigem um aumento nos recursos para a educação, que hoje correspondem a 4% do PIB. Um dos grupos de estudantes agregou ainda o pedido de um plebiscito para decidir a questão, incluindo a nacionalização de recursos naturais em mãos da iniciativa privada para custear o ensino superior público.

¿ Se a classe política, tanto o governo como o Poder Legislativo, não é capaz de resolver esse conflito, terá que ser a cidadania a decidir ¿ disse Camila Vallejo, presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (Fech) à mídia chilena.

A passeata ¿ uma das maiores dos últimos anos ¿ ocupou a Alameda, principal avenida do Centro, entre a Praça Itália e a Praça dos Heróis, passando pelo Palácio de La Moneda. Como em manifestações anteriores, incluiu humor, música e crítica, como três estudantes seminus que protestaram enrolados em cartazes na cidade de Concepción e um tanque feito com caixas de ovos em Santiago. Havia ainda alguns ¿vestidos¿ de carros lançadores de água.

Os confrontos ocorreram no final da manifestação, quando grupos de pessoas encapuzadas jogaram pedras numa farmácia e num banco em Santiago, sendo dispersadas com bombas de gás lacrimogêneo e jatos de água. Carros também foram atacados. Os líderes estudantis alegam que a passeata foi infiltrada por pessoas que receberam dinheiro para causar confusão. Outros, como três estudantes de 14 anos, foram presos com coquetéis molotov. Houve ainda detidos com bombas de tinta. garrafa contendo arsênico e objetos perfurantes.

Se não forem ouvidos, os estudantes levarão seus pedidos ao Congresso e mesmo a Piñera, disse Giorgio Jackson, presidente da Federação de Estudantes da Universidade Católica. Mas, mesmo nas declarações, ficam evidentes as diferenças de propostas entre os grupos.

O protesto encontra Piñera num momento em que o presidente conta com 36% de aprovação, seu mais baixo índice desde que assumiu o governo em março de 2010, e quando outras manifestações eclodem no país, como protestos contra a construção de represas no sul ou por recursos em cidades do norte. Soma-se a isso uma taxa de desemprego de 7,2% no trimestre março/maio.

¿ No ano passado houve uma trégua devido ao terremoto. As pessoas entendiam que os recursos deveriam ir para a reconstrução. Essa fase passou ¿ descreve o analista político Ricardo Israel, de Santiago, por telefone. ¿ Há algo mais profundo. Uma sensação de mal-estar, tanto político quanto econômico. Essas manifestações são um pouco como o movimento dos indignados espanhóis. Não há uma proposta política.

Oposição pede a saída do ministro da Educação

Na linha de frente do confronto com os estudantes está o ministro da Educação, Joaquín Lavín. Na quarta-feira, os manifestantes consideraram insuficiente a proposta apresentada por ele. Ela previa mais U$75 milhões para as universidades, mas não respondia a questões como a criação de uma superintendência de educação e o fim do lucro com o sistema.

Com centenas de universidades e de colégios de ensino médio ocupados por alunos em Santiago, a oposição exigiu que o ministro ¿ um possível candidato da direita para suceder Piñera ¿ deixe o cargo. E mesmo a UDI, partido da base do governo, enviou ontem uma carta a Lavín, pedindo que agilize as reformas na educação.

Após fracassar o diálogo, o governo resolveu na terça-feira antecipar as férias escolares. Não adiantou. Os estudantes reuniram milhares e já sinalizaram que as passeatas não param por aí.

Com agências internacionais