Título: Inflação cede, mas estoura meta
Autor: Nogueira, Danielle; Gomes, Wagner
Fonte: O Globo, 08/07/2011, Economia, p. 23

IPCA varia 0,15% em junho e, no semestre, é o maior desde 2003. Para analistas, juros subirão mais

Danielle Nogueira, Wagner Gomes e Deborah Berlinck

A inflação oficial desacelerou em junho: o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,15%, ante 0,47% em maio, conforme informou ontem o IBGE. A variação, porém, veio acima da expectativa do mercado e continua a preocupar analistas. O temor é que o Banco Central (BC) tenha de lançar mão de novas doses de um remédio impopular para conter a alta dos preços: o aumento na taxa básica de juros, a Selic, hoje já em 12,25% ao ano. No acumulado dos últimos 12 meses até junho, o IPCA acelerou para 6,71% (a maior taxa desde 2005), contra 6,55% registrados até maio. Pelo terceiro mês seguido, o índice ficou acima do teto da meta de inflação fixado pelo governo para o ano (6,5%). No semestre, a variação chegou a 3,87%, o maior patamar desde 2003 para o período.

Os grupos que puxaram a inflação para baixo foram alimentação e bebidas, cujos preços caíram 0,26% em junho - em comparação com avanço de 0,63% em maio -, e transportes, que teve queda de 0,61% mês passado, recuo maior que o verificado no mês anterior (-0,24%). Os elementos de um dos pratos mais consumidos no país, o tradicional arroz, feijão, bife e batata frita, apresentaram queda em junho, com destaque para a batata inglesa (- 11,38%) e carnes (- 1,24%).

De acordo com a coordenadora do sistema de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes, a retração nos preços dos alimentos se deve à menor pressão dos reajustes das commodities no mercado internacional, bem como à maior oferta interna de grãos.

- As enchentes que ocorreram no início do ano, levando à alta dos preços dos alimentos, não se repetiram agora. E estamos em plena colheita, o que amplia a oferta dos produtos agrícolas - diz Eulina.

Frio eleva preços de hortaliças em 20%

Este panorama, no entanto, tende a mudar. A onda de frio dos últimos dias no Sul e Sudeste do país já começa a mexer com o preço dos alimentos. Na Ceagesp, maior entreposto comercial do país, o preço das hortaliças (alface, rúcula, escarola e agrião) subiu quase 20% em apenas duas semanas. O preço do milho também deve aumentar com a quebra da safra provocada pelas geadas no Paraná no fim de junho.

- Um clima como esse traz reflexos de curtíssimo prazo nas hortaliças. No médio e longo prazo, os preços do milho e da soja também podem subir. A situação do estoque nos EUA é preocupante e a quebra da safra no Paraná complica ainda mais - diz José Vicente Ferraz, diretor-técnico da consultoria Informa Economics FNP.

Nos EUA, o estoque de milho está em menos da metade. No Paraná, a perda pode ter chegado a um milhão de toneladas na última semana. Segundo Ferraz, se o milho aumentar, subirão também soja, carne, leite e ovos. Com isso, diz, há perigo de explosão de preços até o fim do ano.

- Não são apenas as hortaliças as prejudicadas. Há mortandade de animais e aumento de gasto com manutenção de gados e frangos, por exemplo - disse o economista Heron do Carmo, da USP e presidente do Conselho Regional de Economia.

No caso do grupo transportes, contribuíram para o menor avanço da inflação em junho medida pelo IPCA as quedas dos preços do álcool (- 8,84%) e, por tabela, da gasolina (-3,94%), já que esta tem 25% de álcool em sua composição. Individualmente, a gasolina foi o item que mais forçou o índice oficial para baixo, segundo o IBGE, em razão de seu peso no orçamento das famílias. No acumulado do ano, porém, ambos os combustíveis continuam pressionando a inflação, com altas de 5,95% (álcool) e 6,15% (gasolina).

- Os preços dos combustíveis já voltaram a subir este mês - disse Alexandre Maia, economista-chefe da Gap Asset Management, para quem transportes subirão 0,35% em julho.

O economista prevê também uma deflação menor dos preços dos alimentos este mês (- 0,07%), o que levará a um retorno de alta da inflação para 0,20% a 0,25% em julho. Para o ano, ele prevê 6,4%, no limite da meta. O economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, lembra que junho, julho e agosto de 2010 tiveram inflação nula ou próxima de zero. Por isso, a tendência é que, no acumulado de 12 meses, o índice continue a subir neste e no próximo mês, chegando a 7% em agosto e, depois, arrefecendo até chegar em torno de 6% ao fim do ano.

Mantega: inflação tira menos sono que real

O economista-chefe do banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, explica que o arrefecimento a partir de setembro se dará em parte por efeito estatístico, pois houve forte avanço dos alimentos nos últimos meses de 2010, e esta pressão não deve se repetir na mesma proporção no último trimestre deste ano. Ele ressalta, no entanto, preocupação com os serviços, que englobam de aluguel a cabeleireiro. Nos 12 meses encerrados em junho, eles acumulam alta de 8,74%. E, na avaliação de Leal, não deve fechar 2011 abaixo dos 8%, o que comprometeria 45% da meta de inflação.

- A alta dos serviços é preocupante, pois ela demora muito mais para perder fôlego do que os alimentos, por exemplo. Acredito que, se a variação (dos serviços) continuar no patamar atual, o BC continuará subindo os juros - afirma o economista, que prevê mais duas altas de 0,25 ponto percentual da Selic este ano, elevando-a a 12,75%.

Apesar da preocupação dos analistas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem em Paris que perde mais o sono por causa da valorização do real do que pela inflação.

- A inflação será uma preocupação permanente. Nunca deixaremos a inflação ultrapassar determinados limites. Ela está caindo no Brasil. Nesse momento, eu talvez esteja perdendo o sono pelo real valorizado. Me preocupa a situação do setor manufatureiro. Temos que garantir que o setor manufatureiro não perca a solidez no Brasil. Não é que está definhando, mas (o setor) tem dificuldade de competir nos mercados externos - disse Mantega em seminário sobre os desafios da economia brasileira, organizado pela revista britânica "The Economist".

O ministro também disse que a economia brasileira não está superaquecida e que os juros não deixarão de subir por causa do câmbio.

- Não vamos deixar de subir juros por causa do câmbio. Os juros subirão quando o BC achar necessário.