Título: 'Também acho que não posso chutar a porta'
Autor: Beck, Martha
Fonte: O Globo, 10/07/2011, Economia, p. 31
BRASÍLIA. O presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Fernando Furlan, comprou briga com muitas companhias por decisões que contrariam interesses em jogo nas fusões. Um exemplo dessa dinâmica é a relação com as montadoras Saint-Gobain e Owens Corming.
Ao relatar o processo de união entre ambas, ele sugeriu - e acabou acompanhado pelos demais conselheiros - que as duas companhias desfizessem sua parceria no mercado doméstico vendendo uma fábrica.
Furlan cita negociação com chineses como aprendizado
As empresas, porém, insistiram no negócio e recorreram judicialmente, chegando até mesmo a trocar de advogados. O Cade, no entanto, conseguiu autorização judicial para nomear um interventor que fizesse sua decisão administrativa passar a valer.
O presidente do Cade, porém, não gosta de ser apenas classificado como conciliador ou diplomático:
- Se fosse diplomático demais, eu não teria conseguido fechar acordo com os chineses na época em que estava no comando do Decom (Departamento de Defesa Comercial) - afirma Furlan. - Mas também acho que não posso chutar a porta. Gosto daquela frase: "Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás" (É preciso endurecer, mas sem perder a ternura jamais, frase atribuída a Ernesto Che Guevara).
Presidente do Cade é concursado do STF
Ele se refere à experiência no comando do Decom, do Ministério do Desenvolvimento, quando seu primo Luiz Fernando Furlan era ministro. Foi lá que ele considera ter aprendido a negociar acordos complexos em situações difíceis.
- Foi um aprendizado. Vai negociar com um chinês a restrição de entrada de um produto dele no Brasil! Não é fácil! - afirma Furlan.
O núcleo familiar de Fernando Furlan nunca teve participação na Sadia (a família Fontana, da mãe do ex-ministro Luiz Fernando, é que fundou a empresa). Mas ele trabalhou na companhia da década de 90, embora a maior parte de sua carreira tenha passado no serviço público.
Furlan é concursado do Supremo Tribunal Federal (STF), é casado e tem duas filhas. (Martha Beck)