Título: Costumes políticos ameaçam conquistas
Autor: Roxo, Sérgio
Fonte: O Globo, 09/07/2011, O País, p. 15
A ex-senadora Marina Silva diz acreditar ter sido alvo de um movimento para forçá-la a deixar o Partido Verde. A terceira colocada na eleição presidencial do ano passado também levantou a hipótese de que a direção da legenda tenha feito um acordo político que inviabilizava a sua permanência.
Mais contundente do que o habitual nas suas entrevistas, Marina disse ao GLOBO que as conquistas alcançadas pelo país nos últimos anos na economia e na área social podem ser colocadas em risco pelo atraso nos costumes políticos.
Qual a diferença que a senhora viu entre a militância longa no PT e a militância curta no PV?
MARINA SILVA: Acho que é um reducionismo ficar comparando PT e PV. A gente tem que pensar o sistema político. O grande desafio é ter um sistema político que tire o eleitor da condição de expectador. Tentei dentro do PV, mas não foi possível. Espero que seja possível para os que estão ficando.
Se os que ficaram conseguirem mudar o PV, a senhora pode voltar?
MARINA: É possível até que consigam, porque acho que o objetivo dessas pessoas (da direção do PV) era não ficar com o incômodo da Marina, que pode vir a querer transformar esse partido em um partido mesmo, deixar de ser uma legenda, como acontece em Rondônia, Amazonas, Mato Grosso e outras realidades.
Qual o problema do partido nesses estados?
MARINA: Acho que é abrir mão de ser protagonista para ser coadjuvante, ficando ali em algum cargo. Mas acho que agora a burocracia que não quer mudança vai tentar fazer algumas reflexões. O movimento que foi feito por esse grupo foi para me excluir porque não tem como ter 20 milhões de votos e ficar do mesmo tamanho.
Mas por que acha que o partido não quer crescer?
MARINA: É difícil explicar, só consigo entender isso na cultura desse sistema político, em que existem donos (dos partidos).
O PV tem dono?
MARINA: Até agora sim.
E o dono é o Penna?
MARINA: Não dá para dizer que é só o Penna, é uma burocracia que se instalou no partido, um modus operandi que funcionou durante um tempo, mas que agora, pelo tamanho que ficamos para a sociedade brasileira, transbordou. E não foi possível aprofundar a calha desse rio para que pudesse conter novas ideias.
Deve haver mudanças nas leis que regulam os partidos?
MARINA: A crise é tamanha que a gente tem que fazer um desdobramento sobre o conjunto da obra. É preciso ter uma proposta que reencante a sociedade com os partidos. O movimento que estamos fazendo é para buscar como a gente pode renovar e se reinventar. Se perguntar como, não tenho uma fórmula. E talvez a nova forma de fazer política seja essa que dispensa as fórmulas.
Se fosse presidente, como a senhora lidaria com um caso como esse da corrupção no Ministério dos Transportes?
MARINA: Não vou falar sobre conjectura. Não sou presidente e talvez não o seja porque não fiz as alianças pragmáticas. Agora, é preciso que a gente se prepare rápido porque, independentemente da boa vontade do presidente de resistir, há toda uma estrutura que vai com uma voracidade enorme. Acho que se não criarmos essa nova qualidade, vamos continuar reféns de tudo isso que vem acontecendo. E não é agora com a Dilma e nem foi só com o Lula, foi também com Fernando Henrique e com os que vieram antes dele. Criamos acúmulos que nos levaram a transformações na economia e nas políticas sociais. Talvez agora o acúmulo necessário seja na política. Se não, vamos perder as conquistas que já alcançamos.