Título: Petistas rechaçam compra de votos e admitem caixa 2
Autor: Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 09/07/2011, O País, p. 12
Partido não vê fatos novos e tenta minimizar denúncia
BRASÍLIA. O ressurgimento do caso do mensalão com a força das alegações finais da denúncia do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, causou desconforto no PT e em aliados do governo no Congresso. A avaliação feita internamente é que o texto de Gurgel chegou com o poder de desmoralizar a campanha de grandes figuras do PT, inclusive do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para desconstruir o episódio. Ontem, surpreendidos, os líderes petistas tentaram minimizar a denúncia, afirmando que não há fatos novos, e voltaram a negar a compra de votos e o uso de recursos públicos.
As declarações são de que o PT já admitiu problemas quanto a financiamentos de campanha, mas na esfera eleitoral, o chamado caixa dois, que, alegam os petistas, é disseminado em toda política brasileira. Alguns preferiram "comemorar" o fato de o ex-ministro Luiz Gushiken ter sido retirado da lista de réus.
O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que os citados na denúncia do Ministério Público já foram punidos politicamente, com execração pública, o que, na sua opinião, teria maior impacto do que a própria condenação judicial.
O petista insistiu na tese de financiamento irregular de campanha, e não mensalão no sentido de compra de votos de aliados. E disse que o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, sempre admitiu que houve crime eleitoral de caixa dois.
- Pela execração pública, eles já sofreram mais do que o peso de uma pena por caixa dois. Não estou defendendo o caixa dois, que tem que ser punido. Mas podemos garantir que não houve dinheiro público. A tese de que houve formação de quadrilha não tem sustentação teórica ou jurídica. O que houve foi o que Delúbio falou desde o começo: a existência de caixa dois, um problema de dinheiro não contabilizado - disse Vaccarezza. - Confiamos na isenção do Supremo. E a decisão do Supremo não vai se discutir.
Humberto Costa diz que não há prejuízo novo para o PT
O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), também minimizou a nova decisão, afirmando que não haverá novos "prejuízos políticos" para o PT e para o governo. Citando a retirada das acusações contra Gushiken, afirmou acreditar que outros deverão ser inocentados, como José Genoino.
- Essa decisão é um pouco estranha. Ao longo desse último período, a expectativa era que tivessem que sair do processo outros citados, como o próprio Genoino. Quem vai decidir é o Supremo e espero que se faça justiça efetivamente. A compra de votos nunca existiu. Mas esse fato já foi pisado e repisado, objeto de campanha eleitoral. O desastre, o prejuízo que tinha que causar já causou - disse Costa.
Mesma argumentação usada pelo líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP). Para ele, "não há fato novo" na denúncia do procurador:
- Do ponto de vista de compra de votos (de parlamentares) para votar matérias, essa versão, na nossa opinião, está errada. O problema foi com financiamento de campanha.
Com o Congresso vazio, ontem, poucos aliados se manifestaram sobre a nova denúncia. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), foi um deles. Disse que a decisão do procurador Roberto Gurgel mostra que o processo do mensalão "não está parado", mas salientou que, antes de condenar, é preciso esperar a defesa de todos os acusados.
- A imagem é que o processo está caminhando, não está parado. Evidentemente, até terminar, ainda leva algum tempo, e os que são acusados têm que ser ouvidos e têm que apresentar suas razões - disse Sarney.
Um outro aliado, preferindo o anonimato, disse que, sem dúvida, "a volta do tema é muito ruim".
É um ingrediente negativo a mais para o governo de Dilma Rousseff, que ainda vive os efeitos de mais uma crise política provocada por denúncias de corrupção no Ministério dos Transportes. Antes dessa crise, que resultou na demissão do ministro Alfredo Nascimento, o PT e o governo administravam a volta de um outro escândalo antigo, o dos chamados aloprados, sobre a compra de um dossiê na campanha eleitoral de 2006 contra o tucano José Serra.