Título: Mea-culpa pela metade
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 21/07/2011, O Mundo, p. 28

Cameron diz que se arrepende de contratação de ex-editor de tabloide e tenta implicar oposição

fduarte@oglobo.com.br

Numa sessão em que a algazarra dos deputados dava a impressão de que se estava num estádio de futebol e não em plena Câmara dos Comuns do Parlamento Britânico, o premier David Cameron conseguiu ontem fazer um mea-culpa pela metade. Pela primeira vez, expressou arrependimento por sua atuação no escândalo dos grampos do tabloide ¿News of the World¿, mas também adotou um tom desafiador para lidar com o bombardeio de críticas no plenário.

Diante das inevitáveis perguntas sobre a relação com Andy Coulson ¿ o ex-editor do tabloide que trabalhou como diretor de comunicações de Cameron entre 2007 e janeiro deste ano ¿ Cameron declarou estar arrependido de ter se associado ao jornalista e disse ¿sentir muito pelo furor causado¿ (pela contratação de Coulson), sem justificar o que a oposição considera um grave erro de julgamento que causou a maior crise de sua gestão.

Mantendo a linha estoica de que acreditou na inocência de Coulson ¿ apesar das evidências apresentadas por conselheiros que tentaram adverti-lo do risco na contratação do jornalista ¿, Cameron prometeu um pedido formal de desculpas ao público britânico caso fique comprovada a culpabilidade de Coulson. O ex-editor do ¿News of the World¿ foi crucial na campanha eleitoral vitoriosa de Cameron, no ano passado, ajudando-o a criar a imagem de um líder conservador, sim, porém menos aristocrático.

Segundo o ¿Guardian¿, Coulson nunca passou por uma investigação rigorosa de seu passado como previa o padrão adotado com outros chefes de imprensa do governo.

¿ Não podemos tomar decisões no futuro. Olhando para trás, eu hoje não teria oferecido a ele (a Coulson) o emprego e tampouco espero que ele fosse aceitá-lo. Vivemos e aprendemos. E, acreditem, eu aprendi ¿ disse o premier, perante os deputados.

O líder da oposição, Ed Miliband, rechaçou as declarações do premier:

¿ Estamos falando de algo até maior que a possibilidade de Coulson ter mentido, mas sim de todas as informações que o premier simplesmente decidiu ignorar, porque se viu num conflito de interesses entre o decoro do cargo e sua lealdade a Coulson.

Outra figura central nesta crise, o vice-premier britânico Nick Clegg ¿ do Partido Liberal Democrata, que compõe a coalizão do governo ¿ até agora manteve-se afastado da crise, mas prometeu falar pela primeira vez à imprensa hoje.

Conversas sobre compra de TV

Em mais de duas horas da sessão extraordinária convocada pelo próprio premier para debater o escândalo, Cameron foi acuado por perguntas sobre seu relacionamento com o império de mídia de Rupert Murdoch, que inclui o ¿News of the World¿. E se viu numa situação delicada ao admitir, ainda que indiretamente, ter conversado com a entourage do bilionário australiano sobre a recente tentativa de compra da BSkyB, a principal operadora de TV a cabo do Reino Unido.

A transação, que acabou abandonada por Murdoch diante da comoção causada pela revelação das escutas ilegais, já era polêmica mesmo antes do escândalo, pois daria a Murdoch, cujos jornais apoiaram Cameron nas eleições do ano passado, uma posição privilegiada no mercado de mídia britânico. Por isso, pelo menos oficialmente, o premier havia delegado a análise da proposta de compra ao ministro da Cultura, Jeremy Hunt. Porém, dados divulgados pelo governo mostram que Cameron encontrou-se 26 vezes com Murdoch ou seus executivos em apenas um ano de governo.

¿ Nunca tive conversas inapropriadas ¿ repetiu o premier algumas vezes, já que muitas das 136 perguntas a que teve de responder ontem giraram em torno do assunto.

Em meio a respostas evasivas e muitas curtas, Cameron também tentou partir para o ataque. Acusou deputados da oposição de criarem teorias conspiratórias e a todo momento lembrava o fato de que o Partido Trabalhista contou com o apoio de Murdoch para se manter no poder entre 1997 e 2010. O líder conservador mencionou a informação, dada na véspera por Murdoch em depoimento a uma comissão parlamentar, de que o magnata era amigo de seu antecessor, o trabalhista Gordon Brown. Sobre o mercado de comunicação, disse:

¿ Sejamos francos: às vezes, neste país, a esquerda superestima o poder de Murdoch e a direita exagera sobre a posição esquerdista da BBC. Mas os dois lados têm ponto, e nunca mais devemos deixar um grupo de mídia ser muito poderoso.

O premier defendeu a decisão de um de seus assessores de recusar, no ano passado, uma oferta da Scotland Yard que informaria o premier sobre investigações do escândalo, que incluiriam alegações mais fortes do envolvimento de Coulson. Cameron alegou que não seria apropriado receber informações privilegiadas da polícia.

Como é de praxe nos debates parlamentares, o premier era saudado por uma claque fiel do partido todas as vezes em que se pronunciava. Do lado de fora do prédio, no entanto, já há sinais de isolamento. Desde o agravamento do escândalo, ministros e lideranças conservadores têm se mantido em silêncio. Chamou a atenção a resposta dada pelo prefeito de Londres, Boris Johnson, a uma pergunta sobre a posição de Cameron, seu colega de partido, numa entrevista.

¿ Sugiro que você pergunte isso para ele ¿ disse Johnson.

E embora estivesse sentado ao lado do premier no debate ontem, o ministro das Finanças, George Osborne, tem sido um omisso notável. Segundo a imprensa britânica, sem seus escudeiros o premier fica exposto também aos inimigos internos.

Em outro desdobramento, a firma de advocacia Harbottle and Lewis, contratada em 2007 pela News International (a empresa que controla os jornais de Murdoch no Reino Unido) para analisar as acusações de grampo contra o ¿News of the World¿, anunciou ter recebido autorização para quebrar o acordo de confidencialidade com os Murdoch. A empresa quer se defender de uma alegação feita por James Murdoch de que o relatório apresentado pela Harbottle and Lewis levou os executivos da News International a pensar que os grampos eram coisa do passado.

Detetive diz que tudo pode mudar

Quem também parece livre de um acordo de confidencialidade é Glenn Mulcaire, o detetive particular contratado pelo ¿News of the World para conduzir o esquema de grampos¿. A News International cancelou ontem o pagamento de suas despesas legais, o que havia sido prometido pelo próprio Rupert Murdoch. Ontem, num rápido pronunciamento na porta de casa, ele deu a entender que não pretende ficar em silêncio.

¿ Não tenho nada a declarar agora. Mas tudo pode mudar ¿ disse ele.

Murdoch recebeu um voto de confiança importante ontem: o príncipe saudita Alwaleed bin Talal, principal acionista não familiar da News Corp., expressou, em nota, sua confiança na empresa. Na semana passada, o príncipe havia dito, em entrevista à BBC, que Rebekah Brooks, a principal executiva de Murdoch, ¿deveria sair¿. Ela foi afastada do cargo logo depois.