Título: Querem nos calar!
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Fonte: O Globo, 22/07/2011, Opinião, p. 7

A ação judicial do presidente da República do Equador, Rafael Correa, contra o diário "El Universo", em que se pedem três anos de cárcere para seus diretores e para o jornalista Emilio Palacio, mais uma soma de US$80 milhões como indenização, não é um problema somente desta empresa jornalística ou de seus diretores. É um atentado contra as liberdades dos cidadãos, entre as quais, uma das mais importantes, a liberdade de informar e de opinar.

Não é a primeira, nem será a última vez que um governo se incomoda com o trabalho da imprensa independente. A história dos veículos de comunicação deste país está marcada por múltiplos conflitos com os poderosos da ocasião.

A imprensa é uma instituição formada por seres humanos e, apesar de que possa cometer erros, sua contribuição para melhorar a sociedade é superior e isso está demonstrado em mais de 400 anos de sua existência.

É esse mal-estar que causa aos governos o que nos levou a este julgamento, com a única intenção de nos amedrontar e assim criar um marco nefasto na história do país. Querem nos calar, que nossa mão trema ao escrever sobre qualquer ato de corrupção, e provocar o pior silêncio de todos - a autocensura.

Este sistema de atemorização está sendo implementado através de uma ordem de prisão contra um colunista que opinou sobre um fato de importância histórica, e contra os diretores deste veículo por deixar que ele expressasse livremente suas ideias.

Os equatorianos, como muitos povos, suportamos profundas crises sociais marcadas por violência e tragédias. Os desaparecidos nos anos 80, a crise bancária dos 90, os assassinatos orquestrados pelo Estado, Vietnã, Pinochet, Franco, revoluções, torturas e golpes de Estado seguem sendo temas de discussão e sempre geraram diferentes versões e pontos de vista, com a intenção de encontrar a verdade.

Os equatorianos temos o dever e o direito de discutir e debater esses acontecimentos, incluindo a tragédia de 30 de setembro, quando um grupo de policiais se rebelou em Quito. Os cidadãos têm o direito de saber o que aconteceu naquele dia e ter acesso a versões diferentes da que pretende impor o governo. Ninguém pode nos tirar esse direito, muito menos o Estado e seus governantes.

Se isto chegasse a ocorrer, a verdade não permaneceria oculta por muito tempo. Depois de algum tempo teriam de ser constituídas novas comissões da verdade para resgatar e descrever o que o poder, em determinado momento, e com base em manipulações, manteve oculto.

"El Universo" continuará fazendo seu trabalho de informar com objetividade e independência e seguirá dando o espaço necessário para que os cidadãos possam expressar suas ideias livremente, sem a intervenção do Estado, tal como vem fazendo nestes 90 anos de existência.

Expressamos nosso agradecimento aos trabalhadores, aos aposentados, distribuidores, jornaleiros, leitores, meios de comunicação nacionais e internacionais, aos colegas, aos sindicatos, aos amigos e à cidadania em geral pelas múltiplas manifestações de solidariedade que temos recebido.

CARLOS PÉREZ BARRIGA é diretor do "El Universo", de Guaiaquil, Equador.