Título: Pensei em abandonar o futebol
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 31/07/2011, O País, p. 17

ZICO

Mais famoso jogador da família Antunes Coimbra, Zico, que se consagrou no Flamengo, disse que só recentemente soube dos fatos ocorridos naqueles anos. Autor do gol contra a Argentina, em 71, que classificou o Brasil para as Olimpíadas de Munique, ele fala da decepção por não ser convocado para os Jogos.

Evandro Éboli

Que lembrança tem daquela época?

ZICO: Era muito pequeno, e o pessoal sempre escondeu essas coisas. Vim saber de detalhes mais profundos agora. Minha irmã (Maria José, também anistiada política) me contou algumas coisas. O mais importante é que o Nando obteve esse reconhecimento em vida e também o pedido de desculpas do Estado. Só ele pode avaliar o que sofreu.

Sobre a atitude dele de ter preservado você e seus irmãos e evitado levar para casa a perseguição que sofria nos clubes que passava...

ZICO: O Nando se resguardou para não nos atingir. Isso foi muito bacana e mostra o caráter dele, que aprendeu com nossos pais. O gesto dele foi fantástico. Seremos sempre agradecidos a ele.

O que pode dizer sobre seu corte na seleção olímpica? A revelação de que foi um ato político. Ficou surpreso?

ZICO: Foi o único momento em que pensei em abandonar o futebol. Em 71, fiz o gol da vitória que classificou o Brasil para as Olimpíadas. Em 72, como não fui aproveitado pelo Zagallo no adulto do Flamengo, fui para casa. O Antoninho (Antônio Ferreira, técnico da seleção olímpica) me pediu para voltar a treinar, no juvenil, para estar em atividade e me convocar para a Olimpíada. Fui artilheiro e tudo, mas, para minha grande decepção, não fui convocado.

Como se sentiu?

ZICO: Decidi que não ia mais jogar bola. Quis parar mesmo de jogar. Já tinha acontecido com meus dois irmãos (Antunes e Edu). E eles foram os responsáveis por eu não desistir. Acabei voltando ao Flamengo, tinha um contrato para cumprir.

Não imaginava que houve pressão política para não ser convocado?

ZICO: Não sabia. A gente sempre acha que é opção do treinador. E minha tristeza maior era que o treinador que pediu para eu voltar não me convocou. A gente passa a não acreditar mais nas pessoas. Foi um aprendizado. Depois disso, passei a ficar com os dois pés atrás.