Título: Irmão de Zico foi perseguido pela ditadura
Autor: Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 31/07/2011, O País, p. 17

Considerado subversivo pelo regime, Nando se tornou primeiro ex-jogador anistiado e indenizado

BRASÍLIA. A intromissão do regime militar no futebol não se restringiu à exploração ufanista do desempenho da seleção tricampeã na Copa de 70. Durante a ditadura, até mesmo jogador de futebol era perseguido pelos agentes da repressão. Foi o caso de Fernando Antunes Coimbra - um dos irmãos de Zico -, que teve sua carreira de atleta interrompida de forma prematura, no início da década de 1970, por ser considerado comunista. Nando, como é conhecido, foi o primeiro ex-jogador de futebol a ser anistiado pelo governo e indenizado.

O rótulo de "subversivo" não interferiu apenas na carreira de Nando, mas também na de seus irmãos. Segundo a família, Edu deixou de ser convocado para a seleção de 70 por ser irmão de um perseguido político. E Zico, pela mesma razão, foi esquecido da seleção olímpica que foi a Munique (Alemanha), em 1972, e que ajudou a classificar no Pré-Olímpico de 1971, na Colômbia. Sua não convocação quase o fez abandonar o futebol.

A carreira de Nando no futebol durou menos de seis anos, entre 1966 e 1972. Ele saltava de um clube para outro após intervenção de agentes do governo e era excluído dos times sem qualquer explicação dos dirigentes. Nando começou no juvenil do Fluminense e, como profissional, atuou no Santos (do Espírito Santo), América (RJ), Madureira, Ceará, Belenenses e Gil Vicente. Esses dois últimos, clubes de Portugal.

O jogador foi perseguido até mesmo no exterior. Quando se transferiu para o Belenenses, em 1968, foi procurado e interrogado em um hotel de Lisboa por dois agentes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), do ditador Salazar. Preferiu voltar ao Brasil sem ter feito uma partida sequer pelo time.

- Tinha 22 anos e chegaram dois caras de terno, sabendo tudo da minha vida. Fiquei desesperado, chorei um monte e consegui voltar para o Brasil - contou Nando.

Em agosto de 1970, no Rio, Nando foi preso por agentes do Dops, na casa da prima Cecilia Coimbra, hoje presidente do grupo Tortura Nunca Mais, do Rio. Foi levado para o Doi-Codi, na Tijuca, junto com três primos, e ficou quatro dias detido. Já famosos jogadores do América carioca, os irmãos Antunes (o mais velho) e Edu foram para a frente da delegacia buscar informações e interceder por sua libertação.

- O Nando sumiu, desapareceu. Fizemos plantão, e eu queria ser trocado por ele. Me lembro que, quando saiu, estava meio aéreo, meio bobo. A prisão dele prejudicava nosso equilíbrio emocional - contou Edu, preterido da seleção brasileira em 1970, quando era meio-campo do América.

Em seu lugar, foi convocado Dario, o Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro, que teria a preferência do presidente Médici.

- Em 1969, fui artilheiro do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (antigo Campeonato Brasileiro). A minha não convocação (para a Copa de 70) foi uma surpresa desagradável. Havia um apelo popular de Minas para convocar o Dario. Era até merecedor. Mas, com todo respeito, eu tinha uma qualidade muito maior que o Dario - disse Edu.

Os irmãos contam que Nando, à época, escondia a perseguição que sofria para poupar a família. Na prisão, Nando era interrogado com capuz na cabeça e ficava até dois dias seguidos na cela com as mãos para cima, de costas.

- Era uma tortura. Se a mão baixava, um meganha com o fal (espingarda) me tocava pelas costas. Me falavam um monte. Que eu não jogava porra nenhuma e que participava de uma célula de esquerda. Ridículo, viajaram na maionese - contou Nando.

A Comissão de Anistia reconheceu a perseguição política a Nando e aprovou seu direito à indenização, com prestação mensal de R$2 mil, mais um retroativo de R$323 mil, referentes aos atrasados que deixou de receber. A conselheira Sueli Bellato relatou o caso de Nando na comissão.

- Assim como identificamos mais facilmente o que o regime militar fez, por exemplo, no meio intelectual e das artes, agora começamos a descobrir a repercussão da ditadura nos esportes. E identificamos os prejuízos causados - disse Bellato.

Além de sua proximidade com parentes que atuavam na oposição à ditadura, os militares também perseguiram Nando por ele ter sido professor, num período inferior a um ano, entre 1963 e 1964, do Plano Nacional de Alfabetização (PNA). Era uma ação do governo de João Goulart, com base na pedagogia de Paulo Freire, que pretendia alfabetizar cinco milhões brasileiros em dois anos. Os militares consideravam os servidores do PNA um "amontoado de comunistas que pretendia, em escala nacional, doutrinar o povo e submeter o país a uma ditadura do proletariado", segundo documento apresentado na Comissão de Anistia.

Nando hoje é coordenador da Zico 10, escolinha que atende a 350 carentes em Quintino. A sua história virou um livro, lançado semana passada na sede do Ceará, um de seus ex-clubes, que lhe fez uma homenagem. A publicação é uma parceria do Centro Cultural do Ceará com a Associação 64/68 de Anistia, que reúne ex-militantes políticos no estado.